segunda-feira, 19 de setembro de 2011

FERNANDO VELOSO - Educação e a crise financeira

Demanda por trabalhadores qualificados cresceu acima da oferta de trabalhadores com diploma universitário



As diversas interpretações da crise financeira internacional em geral enfatizam desequilíbrios macroeconômicos e falhas na regulação do sistema financeiro. No livro "Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy", o economista Raghuram Rajan, da Universidade de Chicago, acrescenta um elemento surpreendente: a ineficiência do sistema educacional americano.
Nas últimas três décadas, houve uma elevação significativa da desigualdade de renda nos Estados Unidos.
Isso decorreu principalmente de um grande aumento da desigualdade salarial.
Por exemplo, em 1975 o salário de um trabalhador no grupo dos 10% mais ricos correspondia a cerca de três vezes o salário de um trabalhador dentre os 10% mais pobres. Em 2005, essa diferença passou a ser de cinco vezes. No mesmo período, o salário dos 10% mais ricos aumentou mais de 60% em relação ao salário médio.
Um dos principais fatores responsáveis pela elevação da desigualdade foi um aumento expressivo do salário de trabalhadores com ensino superior completo em relação ao de trabalhadores que concluíram apenas o ensino médio.
Isso decorreu do fato de que a demanda por trabalhadores com maior qualificação, associada ao uso de novas tecnologias, cresceu muito acima da oferta de trabalhadores com diploma universitário.
Embora restrições financeiras possam ter contribuído para o lento aumento da oferta de trabalhadores com ensino superior completo, pesquisas mostram que o principal motivo foi o baixo nível de aprendizagem ao final do ensino médio.
Outra manifestação do descompasso entre demanda e oferta de trabalho qualificado nos Estados Unidos é o fato de que, muitas vezes, trabalhadores demitidos não possuem as qualificações necessárias para preencher novas vagas.
Essa é uma das razões pelas quais, desde o início da década de 90, a recuperação dos empregos perdidos após as recessões tem sido cada vez mais lenta.
Segundo Rajan, diante das pressões resultantes do aumento da desigualdade e das dificuldades de se produzir avanços rápidos na qualidade da educação, a solução política foi expandir de forma maciça o crédito para a aquisição da casa própria.
Além disso, Rajan argumenta que a dificuldade da economia americana em gerar empregos após a recessão de 2001 levou o Banco Central (Fed) a manter as taxas de juros baixas por um tempo excessivamente longo.
Em resumo, a elevação das tensões sociais associada às dificuldades do sistema educacional dos Estados Unidos em prover educação de qualidade teve um papel relevante na crise financeira. Isso ajuda a entender a importância atual do tema da reforma da educação no debate público americano.

FERNANDO VELOSO, 44, é pesquisador do Ibre/FGV
fernando.veloso@fgv.br

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A UNE deles e a nossa - DEMÉTRIO MAGNOLI

Ao contrário da chilena, a brasileira, estatizada pelo lulismo, prefere os palácios às ruas

Os estudantes chilenos têm razão, ao menos na sua reivindicação original, de reforma radical do sistema de ensino do país. Isso é o que pensa uma ampla maioria dos cidadãos, segundo informam as pesquisas de opinião. Todas as evidências disponíveis revelam que o modelo ultraliberal imposto à educação pela ditadura de Augusto Pinochet é incompatível com a democracia. O surpreendente não é a revolta que se espraia pelas cidades do Chile, mas a longa convivência dos governos de centro-esquerda da Concertación com um modelo intolerável.

A Lei Orgânica Constitucional de Educação, de Pinochet, adotada em 1980, municipalizou as escolas públicas, desde a pré-escola até o secundário, e criou um sistema de vouchers (abonos) pelo qual o governo subsidia, em valor uniforme, os gastos familiares com a educação. Dessa lei surgiu um modelo baseado em três tipos de escolas: públicas (municipais), privadas subsidiadas e privadas pagas. Todas as escolas públicas passaram a gozar de autonomia pedagógica, com a abolição dos currículos nacionais, e de autonomia administrativa, com a supressão da contratação pública de professores, mesmo nas escolas municipais.

Milton Friedman, o "pai fundador" da célebre Escola de Chicago, visitara Santiago em 1975 e oferecera a Pinochet um esboço de programa econômico. Os "Chicago Boys", economistas chilenos formados nos EUA sob a tutela de Friedman, conduziram as reformas, inspiradas no dogma do mercado perfeito. A lei educacional estendeu o dogma à esfera do ensino, fazendo do Chile um campo de provas de uma doutrina que enxerga no Estado a fonte exclusiva do Mal. No novo "mercado da educação", a livre concorrência produziria um máximo de eficiência econômica e de qualidade de ensino. A experiência fracassou em tudo, exceto na sua meta implícita de comprimir os gastos nacionais com a educação.

Os testes internacionais do Pisa, promovidos pela OCDE, mostram que a educação chilena é a menos ruim da América Latina (excluindo o México) - mas ela provavelmente já ocupava tal lugar antes de Pinochet. Contudo atestam também que, entre os 65 países participantes, o Chile figura na penúltima posição em termos da variância dos resultados segundo a classe de renda dos estudantes. Os alunos de escolas privadas pagas alcançam resultados invejáveis, enquanto seus colegas das escolas municipais não atingem os níveis mínimos de aprendizado em leitura, matemática e ciências. No meio do caminho situam-se os jovens das escolas privadas subsidiadas.

Há um rígido, malévolo apartheid educacional, que brilha à luz inclemente das estatísticas desagregadas. Nos testes do Pisa, as escolas privadas subsidiadas dos bairros de classe média saem-se bem melhor que as escolas similares das periferias populares. A explicação é simples: nas primeiras, ao contrário das segundas, as famílias pagam taxas complementares ao valor dos vouchers. As escolas privadas das periferias não têm nenhum incentivo para oferecer um ensino melhor que o das arruinadas escolas públicas. Aprende-se precisamente aquilo que se paga - eis a essência do modelo educacional darwinista implantado no Chile.

A mensagem original dos estudantes chilenos já quase não é audível, após a onda de repressão policial que desviou os protestos para os arredores da exigência de derrubada do governo de Sebastián Piñera. As nações introduziram a educação pública no quadrante histórico da consagração dos direitos de cidadania. Na direção oposta, os "Chicago Boys" definiram os jovens como consumidores de educação. Os estudantes chilenos deflagraram seu movimento dizendo que a educação pública não deve ser identificada com um bem econômico comum e submetida à lógica dos mecanismos de oferta e procura. Eles estão rejeitando um sistema que apaga a palavra "cidadão", substituindo-a pelo termo "consumidor".

O núcleo da mensagem chilena serve perfeitamente para o Brasil. Por aqui, nas duas últimas décadas os gastos com educação não se reduziram, mas aumentaram. Contudo eles não chegam aos professores que estão nas salas de aula. Sob um sistema perverso, os mestres ganham mal e não são avaliados segundo critérios de mérito. O Chile é aqui: em média, os alunos de escolas públicas aprendem muito menos que os das escolas privadas.

No Brasil não temos vouchers, mas um modelo de educação pública estatal altamente burocratizado no qual se acomodam tanto os interesses das elites políticas estaduais e locais quanto o poder corporativo dos sindicatos de professores. No fim das contas, convivemos com um apartheid educacional inflexível, que se estende da pré-escola ao ensino superior. O Chile é aqui: a renda familiar determina a qualidade de ensino recebida pelos jovens.

Entretanto, num aspecto crucial o Chile não é aqui. As entidades estudantis chilenas que organizam os protestos em curso já fustigavam, há anos, o governo de centro-esquerda de Michelle Bachelet. No Brasil, ao contrário, as principais entidades estudantis funcionam como extensões do PT e do PCdoB. Financiadas pelo governo, a UNE e congêneres incensam seus patronos, não se furtando nem mesmo a aplaudir os disfarces mais óbvios de nosso apartheid educacional. Elas celebram o ProUni, pelo qual o governo concede "vouchers fiscais" aos empresários do ensino superior enquanto condena os estudantes de baixa renda a preencher vagas ociosas nas piores faculdades privadas. Na mesma linha, celebram as cotas raciais que separam jovens oriundos das escolas públicas pela cor da pele, introduzindo uma fronteira política de raça na consciência dos filhos de trabalhadores.

A "UNE" deles tem razão. Os líderes estudantis chilenos, apoiados por uma maioria esmagadora dos cidadãos, estão dobrando a resistência do governo. A "nossa" UNE, estatizada pelo lulismo, prefere os palácios às ruas. João Carlos Di Genio deveria agradecer por escrito.

Orientação profissional e ocupacional - ROBERTO MACEDO

Metade dos alunos do 3.º ano não sabe qual carreira seguir foi o título de matéria neste jornal no dia 22 do mês passado, baseada numa pesquisa com alunos desse ano do ensino médio. Ela de novo revelou a enorme carência de orientação profissional no Brasil.

Sei que algumas escolas privadas de ensino médio oferecem essa orientação, às vezes sob a forma simplista de uma "semana das profissões", na qual especialistas de várias áreas falam de suas experiências. Uma das dificuldades dessa programação é que os palestrantes são usualmente profissionais de sucesso e, entre outros aspectos, também seria importante discutir experiências dos que não se saíram bem, até mudando de profissão.

Nas escolas públicas, nem mesmo ciclos desse tipo são comuns e, em geral, os estudantes não têm recursos para buscar orientação individual e especializada, a qual, aliás, não é comumente buscada nem mesmo pelas famílias de maior renda. Usualmente, o jovem procura informações por si mesmo, as famílias costumam influir na escolha, mas a dúvida é comum, e é um dos ingredientes da alta taxa de evasão de cursos, que a reportagem também menciona.

A orientação profissional ou vocacional fornece informações sobre as várias profissões e no orientando identifica suas aptidões e seus interesses específicos. Por exemplo, como se sentiria como um médico, um engenheiro ou um economista. Finalmente, depois de muita conversa eventualmente apoiada por testes, identifica-se a vocação profissional, num exercício que muitas vezes não converge para uma única opção.

À dificuldade de escolher sobrepõe-se a natureza do ensino superior adotado no Brasil, de profissionalização precoce, levando o jovem a passar por esse suplício da escolha numa idade em que não está preparado para isso, tanto por escassez de informações como pela imaturidade típica da idade.

Tal escolha poderia ser adiada por dois anos de um ciclo básico no ensino superior, de natureza interdisciplinar, e a opção por uma especialização só ocorreria ao final dele. Mesmo então, contudo, ainda não deveria ser de grande profundidade, a qual ficaria para a fase de pós-graduação. Esse é um sistema que foi inicialmente adotado por importantes instituições de ensino superior nos EUA e, por seu sucesso, se tem disseminado por outros países.

Também não há no Brasil, de modo geral, a possibilidade de mudança de curso sem novo exame vestibular. Não sem razão, são comuns as já citadas desistências de curso, e há a insatisfação que marca aqueles que carregam a dúvida por toda a vida.

Como se isso não bastasse, falta também orientação ocupacional, com a profissional pressupondo que a pessoa encontrará uma ocupação típica da profissão a que chegou. Ocupação, cargo ou função é atividade que a pessoa de fato exerce ou nela trabalha. Por exemplo, economista, torneiro mecânico e advogado são profissões; gerente de banco, presidente da República e embaixador são ocupações.

Como seria a orientação ocupacional? Deveria ter como base um amplo levantamento das várias ocupações, seus requisitos educacionais (a exigência de curso superior não significa que o diploma seja de profissão específica à ocupação), forma de acesso, remuneração, estimativas do número de ocupantes, perspectivas de vagas e outras informações. Entre elas, a de como ajustar um desses diplomas a uma lista maior de ocupações. Por exemplo, um curso de pós-graduação em administração, mesmo de curta duração, facilitaria a transição de um químico para ocupações administrativas. Esse levantamento bem abrangente deveria ser uma iniciativa governamental. Teria como objetivo dar uma boa visão de como funciona o mercado de trabalho, e facilitaria a busca de oportunidades nesse mercado.

Para o conjunto de formandos é impossível haver um perfeito e generalizado acoplamento entre profissão e a ocupação encontrada, como se aquela fosse uma chave adequada a uma fechadura específica. O resultado é que muitos profissionais trabalham em ocupações "atípicas" de suas profissões. Coloquei aspas porque isso não deve ser visto como uma anormalidade e muito menos como um problema. Um caso comum é o dos muitos engenheiros que se tornaram fiscais de tributos ou atuam no setor administrativo de empresas ou em ocupações do setor financeiro. A propósito, dados dos censos de 1980, 1991 e 2000 evidenciaram um crescente descasamento entre as profissões e suas ocupações típicas. Juntamente com outros interessados, aguardo a divulgação dos dados detalhados do censo de 2010 para uma nova avaliação.

A mesma reportagem trata de caso em que a falta de orientação ocupacional pode levar a decisões arriscadas. É o de um estudante que deixou um curso de engenharia de produção pelo de mecatrônica, também abandonado ao saber que "o campo de atuação seria a indústria". Acabou optando por medicina veterinária, afirmando gostar de bichos, e sonhando em trabalhar com "melhoramento genético de animais de grande porte".

Ora, sei que ocupacionalmente os dois primeiros cursos - em particular o de engenharia - oferecem um leque maior de opções ocupacionais do que o finalmente escolhido, muitas delas em áreas administrativas das indústrias, ou mesmo fora delas. Ademais, mesmo um veterinário poderá ter a indústria como seu empregador, numa ocupação ligada à sua especialidade ou não, como a de vendedor de produtos farmacêuticos.

Creio que a orientação também ocupacional aliviaria uma boa parte das incertezas e das tensões da autoritária e limitada forma de escolha a que hoje os jovens são submetidos no Brasil. Mostraria que o mercado é muito mais flexível ao acolher trabalhadores do que o sistema de ensino superior ao receber os seus estudantes.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Esther Pillar Grossi - Existe caminho

É absolutamente incompreensível a falta de lógica entre as notícias de frequentes e aterradoras avaliações de aprendizagem com índices terrivelmente baixos e as análises de seus porquês. Porém, muito pior ainda são os encaminhamentos ventilados e/ou postos em prática.

Na semana passada, foram divulgados os resultados de mais uma avaliação de conhecimentos realizada com 6 mil alunos, encomendada pela ONG Todos pela Educação. Ela foi aplicada em alunos que concluíram o 3º ano do Ensino Fundamental. Os resultados foram desastrosos, tanto em matemática quanto em leitura e escrita.

Que análises apareceram a partir desses resultados?

Segundo a matéria jornalística, a senhora secretária da Educação Básica do Ministério da Educação afirmou que, nos últimos anos, os governos municipais, estaduais e federal focaram mais na alfabetização nos primeiros anos do Ensino Fundamental, o que poderia explicar o resultado inferior em matemática. É muito corriqueiro em análises de resultados educacionais centrar-se em comparações, relativizando o valor absoluto dos dados.

É que na alfabetização os resultados também são péssimos – menos de 50% sabem ler e escrever, pois quem não consegue identificar personagem e tema de um texto não está alfabetizado. Ele está apenas alfabético, isto é, sabe decodificar sílaba por sílaba, mas perde a palavra como um todo e, portanto, não alcança o significado do que está escrito.

Concretiza o que acabo de explicar aquilo que contou uma professora de São Luiz Gonzaga sobre sua mãe. Relatou-nos que, pela manhã, sua mãe pega o jornal, lê uma manchete, sílaba por sílaba, e depois pergunta: “Minha filha, o que foi que eu li?”.

Somente quando se lê com compreensão, porque se consegue captar globalmente cada palavra, fecha-se um esquema de pensamento, que é o que pode ser registrado estavelmente no organismo, em nosso cérebro.

Então, esses alunos – mais de 50% dos que concluíram o 3º ano – não estão alfabetizados depois de três anos de escolaridade. A cada início de ano eles estarão em piores condições do que quando ingressaram no 1º ano. Eles começam o ano letivo seguinte na condição de quem fracassou, de quem não chegou aonde era esperado, aonde outros chegaram massivamente aos seis anos.

E o mais grave nesta situação é que eles se consideram responsáveis por seu fracasso. Eles é que foram desatentos, desinteressados, mal comportados e, para completar seu sentimento de culpa, eles concluem que não são inteligentes como os demais.

Aí, além de uma boa didática para a alfabetização propriamente dita, faz-se imprescindível uma poderosa pedagogia para desfazer o estigma de incompetência que se infiltrou no consciente e no inconsciente do nosso querido aluno, a quem se julgou muito justo e adequado conceder-lhe três anos para que se alfabetize.

Vejamos agora que solução se aponta para o problema. O pesquisador do Inep João Horta propõe um aumento da jornada escolar para resolver o problema. “Não tem como superar uma diferença tão grande em três, quatro horas de aula por dia.”

Ora, a causa do problema não está nas horas de aula que o aluno permanece na escola. As causas verdadeiras residem em uma didática para a alfabetização superada cientificamente e em uma decisão equivocada a respeito dos tempos escolares.

Uma criança que vem para a escola, oriunda de um ambiente alfabetizador empobrecido porque não conta com pessoas que leem e escrevem em sua casa, precisa de uma metodologia de ensino muito diferente daquela organizada para crianças filhas de pais que leem e escrevem. Não é que ela não possa se alfabetizar. Ela pode e bem, se o for em um ano letivo com uma didática atualizada e já disponível nos meios educacionais.

Existe caminho. Mas é preciso utilizá-lo.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A origem dos líderes - Fernando Reinach

Quando imaginamos um líder, características como conhecimento, ousadia, educação e carisma vêm à mente. Mas será que isso se aplica ao líder de um cardume de peixes ou um bando de zebras, onde um animal determina o comportamento de todo o bando? A novidade é que dois pesquisadores demonstraram que, para uma população se dividir em líderes e liderados, basta que exista uma pressão evolutiva que favoreça a ação conjunta do grupo. Para surgirem líderes, os animais sequer precisam se comunicar.

Para simular o surgimento de líderes, cientistas construíram modelos matemáticos baseados em um jogo conhecido entre os teóricos como "guerra entre os sexos". Imagine um casal em que ambos desejam encontrar o parceiro todas as noites, mas estão impedidos de se comunicar. A única coisa que o homem sabe é que a mulher gosta de ir todas as noites ao bar A. E a única coisa que a mulher sabe é que o homem gosta de ir todas as noites ao bar B.

Se a cada noite ambos forem aos seus bares preferidos, nunca irão se encontrar. Se ambos abrirem mão de seu bar preferido e forem ao bar do parceiro, tampouco vão se encontrar. Para haver um encontro é necessário que um seja turrão e não abra mão de sua preferência e o outro abra mão de seu bar.

Agora imagine que o casal pratica esse jogo todas as noites e a única informação que cada um dispõe para decidir onde ir na noite seguinte é o comportamento do parceiro na noite anterior. Se o incentivo para o casal se encontrar todas as noites for alto (eles se amam), a melhor estratégia para o par é que um se torne o líder (vá ao bar que prefere) e o outro se torne liderado (vá ao bar preferido pelo parceiro). Com essa estratégia eles se encontrarão todas as noites (e serão felizes para sempre).
Nesse jogo, líder e liderado não precisam se comunicar para definir seus papéis, mas é preciso que um dos membros seja turrão e o outro, mais compreensivo, de modo que o objetivo dos dois (namorar) seja atingido. O turrão se tornará o líder, o outro, o liderado.

Usando esse modelo, extrapolando essas condições para populações grandes em que essas interações ocorrem de maneira repetitiva, e imaginando que o sucesso reprodutivo de cada membro é proporcional à sua capacidade de encontrar o parceiro, os cientistas construíram modelos matemáticos capazes de simular, variando os diferentes parâmetros, o surgimento de líderes e liderados. O resultado mostra que a partir de uma população homogeneamente "turrona", basta ocorrer uma mutação que aumente ou diminua o grau de intransigência de um membro para que em poucas gerações a população se divida em poucos líderes e muitos liderados.

A velocidade com que essa mudança ocorre depende de dois fatores. Primeiro, quão vantajoso para o grupo é a ação conjunta; segundo, qual o grau de frustração que o liderado tem de tolerar para seguir o líder. Se uma zebra sempre for morta pelo leão ao não acompanhar o grupo, os genes "separatistas" dessa zebra serão rapidamente eliminados. O mesmo ocorre com o rapaz que se recusa a ir ao bar aonde vão todas as moças.

O interessante é que nesses modelos a população rapidamente se agrupa em dois grupos e os intermediários, que a cada noite assumem papel diferente (um dia se comportam como líderes, outro como liderados), ficam em tamanha desvantagem que são eliminados após poucas gerações.
Esses modelos matemáticos demonstram que líderes podem ser selecionados independentemente de inteligência, ousadia ou carisma. Basta ser mais turrão que a média. Claro que nas sociedades humanas e em outros animais sociais as interações são muito mais complexas e outros fatores influenciam a seleção dos líderes. Mas é interessante pensar que talvez essas formas sofisticadas de liderança tenham evoluído a partir de sistemas relativamente simples.

Se por um lado isso explica por que líderes têm opiniões fortes e muitas vezes são intransigentes, o modelo também ajuda a entender matematicamente por que certos bares, quando na moda, atraem grande número de pessoas, enquanto é comum encontrar um estabelecimento mais confortável e vazio ao lado.

BIÓLOGO
MAIS INFORMAÇÕES: EVOLUTION OF PERSONALITY DIFERENCES IN LEADERSHIP. PNAS, VOL. 108, PÁG. 8.373, 2011

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sem inovação e agregação de valor aos produtos, País compromete seu crescimento econômico, alerta Anpei

Ou o setor produtivo brasileiro aumenta o nível tecnológico agregado aos seus produtos e serviços, ou continuaremos a depender das commodities para sustentar nosso crescimento econômico.

É urgente uma política industrial que aumente a densidade tecnológica embutida nos produtos das principais cadeias produtivas brasileiras. De forma resumida, esta é a principal advertência tirada da 11ª Conferência Anpei de Inovação Tecnológica, que reuniu 1.700 pessoas entre líderes empresariais, pesquisadores e técnicos no mês passado em Fortaleza (CE).

Os debatedores lembraram que a pauta nacional de exportação voltou a ter uma composição predominantemente de produtos primários, justificando a necessidade premente de se investir no desenvolvimento tecnológico das diversas cadeias produtivas. Nesse sentido, foram citadas com exemplos bem sucedidos as áreas de petróleo, plástico e fruticultura, nas quais há uma agregação de valor que pode chegar a 10 vezes ao longo da cadeia.

É essa dinâmica, que gera benefícios para as empresas e toda a sociedade, que precisa ser replicada em outras cadeias, salienta a "Carta de Fortaleza", documento redigido após o encontro e que está sendo enviado às autoridades, assim como toda a comunidade da cadeia da inovação.

Para se atingir esse objetivo, os participantes da Conferência de Fortaleza concluíram que são necessários incentivos que estimulem a sustentabilidade e a cooperação entre as empresas e também entre o setor privado e as universidades, de forma a priorizar o desenvolvimento integrado das cadeias produtivas. Ressaltaram, porém que isso deve ser feito paralelamente a um cenário de valorização das commodities, que tende a ser crescente em nível mundial por um bom tempo.

Além do estímulo à inovação nas cadeias produtivas, a "Carta de Fortaleza" também preconiza programas governamentais para a formação de consórcios de empresas para a realização de pesquisas. É assim, segundo os analistas, que são formadas e estimuladas as redes de inovação. No mesmo sentido, a Carta sustenta a necessidade de programas de apoio à internacionalização de empresas, de forma a fortalecer a competência de gestão, em particular a gestão da inovação. Por fim, defendem também ampliação no marco legal, de forma a incluir mais empresas beneficiadas nos programa de incentivos fiscais à inovação.

A "Carta de Fortaleza" foi redigida por um colegiado de especialistas que participa dos diversos comitês temáticos e setoriais da Anpei. Sua íntegra pode ser lida no www.anpei.org.br.

(Ascom da Anpei)

Mapa global da depressão

O episódio depressivo maior (MDE, na sigla em inglês) é uma preocupação considerável para a saúde pública em todas as regiões do mundo e tem ligação com as condições sociais em alguns dos países avaliados.

Essa é a principal conclusão de um estudo que reuniu dados epidemiológicos provenientes de 18 países, incluindo o Brasil. Os resultados foram apresentados no artigo Epidemiologia transnacional do MDE, publicado nesta terça-feira (26) na revista de acesso aberto BMC Medicine.

A depressão é uma doença caracterizada por um conjunto de sintomas psicológicos e físicos, associada a altos índices de comorbidades médicas, incapacitação e mortalidade prematura.

Os países foram divididos em dois grupos: alta renda (Bélgica, França, Alemanha, Israel, Itália, Japão, Holanda, Nova Zelândia, Espanha e Estados Unidos) e baixa e média renda (Brasil - com dados exclusivamente de São Paulo -, Colômbia, Índia, China, Líbano, México, África do Sul e Ucrânia).

De acordo com o relatório, nos dez países de alta renda incluídos na pesquisa, 14,6% das pessoas, em média, já tiveram MDE. Nos 12 meses anteriores, a prevalência foi de 5,5%. Nos oito países de baixa ou média renda considerados no estudo, 11,1% da população teve episódio alguma vez na vida e 5,9% nos 12 meses anteriores. A maior prevalência nos últimos 12 meses foi registrada no Brasil, com 10,4%. A menor foi a do Japão, com 2,2%.

O trabalho faz parte da Pesquisa Mundial sobre Saúde Mental, iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) que integra e analisa pesquisas epidemiológicas sobre abuso de substâncias e distúrbios mentais e comportamentais. O estudo é coordenado globalmente por Ronald Kessler, da Universidade de Harvard (Estados Unidos).

A pesquisa São Paulo Megacity Mental Health Survey, que gerou para o relatório os dados relativos ao Brasil, foi realizada no âmbito do Projeto Temático "Estudos epidemiológicos dos transtornos psiquiátricos na região metropolitana de São Paulo: prevalências, fatores de risco e sobrecarga social e econômica", financiado pela Fapesp e encerrado em 2009.

Entre os autores do artigo estão Laura Helena Andrade, professora do Departamento e Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina (FM) da Universidade de São Paulo (USP), e Maria Carmen Viana, professora do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Andrade conduziu o Temático em parceria com Viana, que teve bolsa de pós-doutorado da Fapesp entre 2008 e 2009 no Núcleo de Epidemiologia Psiquiátrica do IP-FM-USP, coordenado por Andrade.

Segundo Viana, o São Paulo Megacity Mental Health Survey é um estudo epidemiológico de base populacional que avaliou uma amostra representativa de residentes da região metropolitana de São Paulo, com 5.037 pessoas avaliadas em seus domicílios.

Todas as entrevistas foram feitas com base no mesmo instrumento diagnóstico. Atualmente, cerca de 30 países participam da Pesquisa Mundial sobre Saúde Mental com pesquisas semelhantes.

"Em todos os países foi aplicada a mesma metodologia. No artigo internacional, foram incluídos exclusivamente os dados sobre depressão maior, mas a nossa pesquisa avalia diversos outros transtornos mentais, entre eles os de ansiedade - como pânico, fobias específicas, fobia social e transtorno obsessivo compulsivo - e transtornos de humor, como o transtorno bipolar, distimia e a própria depressão maior", disse Viana à Agência Fapesp.

Também foram publicados recentemente resultados sobre transtorno bipolar, suicídio e tabagismo. "No estudo São Paulo Megacity estimamos que 44,8% da população já apresentou pelo menos uma vez na vida algum transtorno mental. Nos 12 meses anteriores à entrevista, a prevalência foi de 29,6%", disse.

Segundo o levantamento transnacional, a depressão maior é uma das principais causas de incapacidade em todo o mundo. "Os dados epidemiológicos, no entanto, não estão disponíveis em muitos países, em especial os de baixa e média renda, como o Brasil. Por isso é tão importante termos esse tipo de estudo de base populacional", afirmou Viana.

A assistência à saúde mental no Brasil, segundo Viana, deixa a desejar do ponto de vista da Saúde Pública. "Acredito que a divulgação de dados como esses devem servir de alerta e de embasamento para políticas públicas de prevenção e assistência à saúde mental. É preciso que essas políticas possam ser traçadas e implementadas levando em consideração as necessidades que identificamos na nossa população", afirmou Viana.

Prevalência maior em mulheres - Os resultados do estudo mostraram que, nos países de alta renda, a idade média de início dos episódios de depressão maior foi de 25,7 anos, contra 24 anos nos países de baixa e média renda. Incapacitação funcional mostrou-se associada a manifestações recentes de MDE.

O estudo também revelou que a prevalência é duas vezes maior entre as mulheres em relação aos homens. Nos países de alta renda, a juventude está associada com uma prevalência mais alta de depressão nos 12 meses anteriores à entrevista. Por outro lado, em vários dos países de baixa renda, as faixas etárias mais altas mostraram ter maior probabilidade de episódios depressivos.

A condição de separação de um parceiro apresentou a correlação demográfica mais forte com o MDE nos países de alta renda. Nos países de baixa e média renda, os fatores mais importantes foram as condições de divórcio e viuvez.

O relatório recomendou que futuras pesquisas investiguem a combinação de fatores de risco demográfico que estão associados ao MDE nos países incluídos na Iniciativa Pesquisa Mundial sobre Saúde Mental.

O artigo Cross-national epidemiology of DSM-IV major depressive episode, de Ronald Kessler e outros, pode ser visto em acesso aberto na BMC Medicine em www.biomedcentral.com/bmcmed.

(Agência Fapesp)