sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Quanto menor a criança, menor deve ser o tempo on-line

Para especialistas, computador não pode substituir brincadeiras e tarefas infantis.

"O João Pedro acha que a vida é touchscreen, tenta controlar tudo tocando na tela e nem olha para o teclado." É assim que a engenheira Katia Ferreira, 40, fala da relação de seu filho caçula, de 4 anos, com o mundo digital. O interesse de pequenos como João Pedro pela tecnologia suscita a pergunta: há idade mínima para uma criança ter seu primeiro computador?

Para o psicólogo Rodrigo Nejm, da ONG Safernet Brasil, a resposta passa primeiro pela avaliação dos pais sobre a maturidade do filho: "O importante é nunca perder de vista que o computador te conecta à maior praça pública do planeta, que é a internet". "E, como você não deixaria seu filho sozinho na rua, não deve deixá-lo sozinho na internet", acrescenta Nejm.

O professor Nelson Pretto, que estuda educação e tecnologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA), concorda que esse acompanhamento é necessário até que a criança tenha compreensão de que a internet oferece riscos. Mesmo com a ressalva, ele destaca a importância do uso dos recursos eletrônicos pelos pequenos.

"A tecnologia tem um papel fundamental na formação das crianças. Formamos nossos jovens para viver no mundo contemporâneo. E esse mundo é cercado de tecnologia", defende Pretto.

E, mesmo que o filho tenha o próprio computador, os pais devem sempre tentar monitorá-lo on-line.

Ao alcance da vista - Nesse sentido, Nejm recomenda deixar o computador na área comum da casa. Para ter computador no quarto, "somente a partir de uns 10, 11 anos, após ter sido acompanhada pelos pais desde os cinco, seis", indica.

Os especialistas ressaltam que não há uma idade mínima para usar computador, mas chamam a atenção para o equilíbrio entre as atividades da criança. "O computador deve ser usado para somar, e não para substituir as brincadeiras e obrigações infantis. Se ela só quer ficar no computador, não sai de casa, não brinca com outros garotos, certamente essa relação está sendo prejudicial", alerta Nejm.

Uma hora por dia - Para Pretto, "quanto menor a criança, menor deve ser o tempo para ela usar o computador". Na avaliação dele, o ideal é não passar de uma hora por dia até ao menos os dez anos de idade. A arquiteta Sabrina Zenario, 37, tem tudo isso em mente quando sua filha Catarina, 6, pede para visitar o site da Barbie, seu preferido. "Estou sempre junto. Ela só usa com a supervisão de um adulto".

O computador que elas usam fica na sala e, oficialmente, pertence a toda a família. Mas Catarina tem outra opinião. "Ah, ela sempre diz que o computador é dela", reconhece a mãe.

(Folha de São Paulo - Leia mais sobre o assunto no caderno TEC)

Nobel de Química vai para cristal que "não devia existir"

Israelense mostrou que estrutura cristalina pode ser formada por padrões complexos que nunca se repetem.

Os meticulosos cadernos de laboratório do israelense Daniel Shechtman permitem datar com precisão a descoberta que acaba de render a ele o Prêmio Nobel em Química deste ano. Foi na manhã de 8 de abril de 1982 que ele usou uma série de pontos de interrogação para marcar sua surpresa com o que estava vendo no microscópio: um cristal que não deveria existir.

Para o comitê do Nobel, ele "modificou a concepção fundamental do que é um objeto sólido", mostrando que os átomos podem se organizar em estruturas de grande complexidade, que não se repetem. Por isso, embora o achado ainda tenha pouca aplicação prática, ele foi considerado digno do prêmio.

Para Nivaldo Speziali, presidente da Sociedade Brasileira de Cristalografia, o ganhador mostrou "que a periodicidade estrutural [a repetição regular das mesmas estruturas] não é necessária na definição de cristal". Há exemplos de materiais artificiais e naturais com os quasicristais (como são chamados) do israelense. A arte medieval bolou estruturas parecidas.

Teimosia - Shechtman precisou de muita persistência, pois a grande maioria dos cientistas duvidou de seus achados. Um deles era Linus Pauling, ganhador do Nobel em 1954, conta Speziali. Por conta das reações negativas, o israelense chegou a ser expulso do laboratório onde trabalhava nos EUA. Hoje ele está no Instituto de Tecnologia de Israel, em Haifa.

Em entrevista dada ao comitê do Nobel, Shechtman disse que sua descoberta lhe ensinou que "o bom cientista é humilde a ponto de estar disposto a considerar novidades inesperadas e violações de leis estabelecidas".

Os quasicristais descobertos são, em sua maioria, criados artificialmente quando uma liga metálica derretida é esfriada rapidamente em uma superfície giratória. Sua estrutura tridimensional dificulta a propagação de ondas, o que define suas características peculiares. Eles são maus condutores de calor e de eletricidade, têm baixa fricção e aderência, mas são altamente resistentes e, por isso, prometem grande aplicabilidade.

Seriam bons para aço reforçado, lâminas e agulhas cirúrgicas, frigideiras e motores a diesel. Mas poucas aplicações concretas já foram desenvolvidas devido ao alto custo de produção deles. Arte islâmica já trazia padrões dos quasicristais

AIQ - O ano de 2011 é celebrado como o Ano Internacional da Química, e o Prêmio Nobel em Química dado a um físico coroa o aspecto interdisciplinar da área. A descoberta dos quasicristais, por exemplo, tem relações com a física, com a engenharia de materiais, com a matemática e até com as artes não figurativas, sem falar na própria química, é claro. O padrão não repetitivo presente nos quasicristais tem raízes matemáticas antigas. A razão das distâncias entre os átomos nesses materiais está sempre relacionada à proporção áurea, descrita pelo matemático Fibonacci no século 13 e conhecida já na Antiguidade.

Na década de 1970, Roger Penrose usou a proporção áurea para produzir mosaicos aperiódicos, imagens compostas de combinações de formas geométricas que são infinitamente variadas. Os mosaicos da arte islâmica medieval, como o do palácio de Alhambra, na Espanha, também têm o mesmo padrão dos mosaicos de Penrose e dos quasicristais.

(Folha de São Paulo)

Cientistas fazem macaco mover e sentir objeto virtual com o pensamento

Pela primeira vez, cientistas realizaram uma comunicação bidirecional entre o cérebro de um primata e uma máquina. Dois macacos com eletrodos implantados no cérebro moveram com o pensamento um cursor na tela de um computador e sentiram a textura - virtual - de objetos.

A descoberta abre portas para a construção de verdadeiros avatares: corpos artificiais ou vestes robóticas que sentiriam e atuariam na realidade comandados diretamente pelo cérebro. "A ação da mente não estaria mais confinada ao organismo humano", disse ao Estado o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, líder do grupo que realizou a pesquisa, publicada na Nature.

A nova tecnologia poderá ter aplicações tão diversas quanto ajudar pessoas com paralisia nos membros, explorar lugares distantes e realizar operações em áreas perigosas.

Origem - Em 1999, a macaca Belle, do laboratório de Nicolelis, moveu um braço robótico com o pensamento. O cientista registrou os sinais de 90 neurônios com eletrodos no cérebro da primata. Em 2001, o experimento foi considerado pelo Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT, na sigla em inglês) uma das dez descobertas que influenciarão de forma profunda o destino da humanidade.

Mas algo importante faltava. Para que dispositivos eletrônicos fossem compreendidos como uma extensão genuína do corpo, deveriam "sentir" a realidade e enviar as informações obtidas para o cérebro. Na recente pesquisa, os macacos foram capazes de discernir a textura de objetos virtuais (mais informações nesta página). O experimento abre caminho para que outras informações, como temperatura, possam ser captadas por máquinas e reproduzidas no cérebro humano.

"Esse estudo confirma que o cérebro reconhece as ferramentas como uma extensão do próprio corpo", diz Nicolelis. "Os animais passaram a dispor do corpo virtual como se ele realmente fosse natural, criando uma nova identidade." As interfaces cérebro-máquina fomentam a esperança de um futuro em que será possível restabelecer os movimentos de pessoas com paralisia e, ao mesmo tempo, recriar a sensibilidade perdida do tato.

Ambição - Não é à toa que o experimento faz parte do plano do consórcio internacional Walk Again. Realizado com a ajuda de outros quatro cientistas do Centro de Neurociência da Universidade Duke, nos Estados Unidos, e outros dois da Escola Politécnica de Lausanne, na Suíça, o projeto pretende desenvolver e demonstrar um exoesqueleto externo para devolver o movimento a pacientes quadriplégicos até a Copa de 2014, no Brasil, data marcada para a demonstração mais ambiciosa da tecnologia.

"O pontapé inicial da competição será dado por um jovem tetraplégico. Temos um projeto de seis anos amarrado com o governo federal e outras instituições para divulgar o projeto Walk Again aos demais países", afirma. "Naturalmente, a estratégia envolve a Copa do Mundo e as Olimpíadas do Brasil."

Nicolelis pretende anunciar em breve uma parceria com o governo federal para trazer a última fase do projeto Walk Again para o Câmpus do Cérebro, em Natal (RN), onde está sendo desenvolvido um programa para que tetraplégicos possam treinar com um avatar que imita o corpo humano.

'Ideia é recriar o tato como um sexto sentido' - Segundo Miguel Nicolelis, tecnologia possibilitará que quadriplégicos recobrem sensação táctil com vestes robóticas.

Como a mesma tecnologia testada nos macacos funcionaria em seres humanos?

A ideia é criar um sexto sentido. Ele vai possibilitar que o paciente recobre a sensação tátil ao usar uma veste robótica, podendo identificar o tipo de terreno onde está pisando ou a textura de um objeto que segura com uma mão biônica.

Como a nova descoberta será integrada à veste robótica que pode possibilitar que quadriplégicos voltem a andar?

A veste terá sensores de pressão que criarão um padrão, e esse padrão será traduzido em um estímulo elétrico proporcional à textura dos terrenos ou objetos. Tudo isso é entregue ao cérebro, que funciona como um reconhecedor de padrões e associa à nova sensação. Partindo da mesma lógica, outras pesquisas podem levar à identificação da temperatura, por exemplo, tornando as próteses biônicas mais sensíveis. O nosso experimento provou, pela primeira vez, que é possível criar uma interface cérebro-máquina-cérebro, permitindo o desenvolvimento de um exoesqueleto robótico para que pacientes paralisados possam receber feedbacks do mundo exterior e, com isso, recobrem a sensação tátil através de sensores. Já havíamos feito uma previsão teórica de que isso era possível, mas ainda não havíamos feito uma demonstração que provasse, e isso muda com o estudo publicado na Nature. Vencemos um grande desafio: os estímulos são enviados ao cérebro ao mesmo tempo que registramos a atividade elétrica do córtex. Ao mesmo tempo que os sinais elétricos do cérebro podem controlar o avatar do corpo, o órgão pode receber um feedback do que esse avatar encontra no espaço virtual.

Muda algo no projeto Walk Again e no plano de fazer um tetraplégico dar o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2014?

Estou propondo ao governo e já tenho sinalização de que querem participar de um projeto de seis anos para demonstrar o projeto Walk Again para o mundo, na Copa e nas Olimpíadas que serão realizadas no Brasil. Queremos fazer demonstrações gradualmente mais complexas do exoesqueleto robótico que fará um tetraplégico voltar a andar.

Quais os próximos passos para a concretização do projeto?

O governo federal deve anunciar nos próximos dias um apoio para trazermos o projeto para Natal, para o Câmpus do Cérebro. Lá nós já temos um avatar realístico do corpo completo de um macaco, agora teremos de criar um modelo igual para o ser humano. Com ele poderemos treinar os pacientes quadriplégicos a interagir com um avatar do corpo. Será como o Flight Simulator (jogo de simulação e treino para pilotos de avião) do avatar que será usado depois pela pessoa.

(O Estado de São Paulo)

O paredismo nas universidades federais

Artigo de Amilcar Baiardi enviado ao JC Email pelo autor.

Dois movimentos paredistas nas universidades federais, um ocorrido e outro em curso, sugerem uma reflexão do mundo acadêmico, da sociedade civil e da sociedade política. Um deles, a greve nacional dos servidores técnicos administrativos, ultrapassou 100 dias, encerrando-se na semana passada. O outro, paralisação / ocupação, a denominação varia dependendo de onde ocorra, de instalações universitárias, inclusive reitorias, pelos estudantes, tem tido uma duração menor, persistindo em alguns casos, atingindo várias universidades federais, entre elas as seguintes: UFSC, UnB, Ufscar, UFF, UFES, Unifesp, UFMT e UFRB.

No caso da greve nacional dos servidores técnicos administrativos, a pauta do movimento grevista contemplava o cumprimento de um acordo assinado em 2007, um novo piso salarial e, para não se restringir a pleitos meramente corporativos, incluía a rejeição ao Projeto de Lei 1749-C/2011, que propõe a criação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares S.A., EBSERH, entidade à qual, de acordo com proposta do poder executivo, caberia "implantar um modelo de gestão mais ágil, eficiente e compatível com as competências dos hospitais universitários, além de oferecer solução jurídico-administrativa sustentável que solucione as crescentes dificuldades operacionais e os inúmeros questionamentos do Tribunal de Contas da União e do Ministério Público Federal a respeito do atual funcionamento dessas instituições".

A EBSERH, uma vez criada como empresa pública de direito privado, assumirá a gestão de todos os hospitais universitários, contratará pessoal pelo regime da CLT e os atuais servidores das universidades federais com funções hospitalares, poderão ser cedidos ao novo ente, com ônus para as instituições cedentes. Com a implantação da EBSERH as universidades federais perdem o controle de gestão dos seus hospitais e a autonomia universitária é desconsiderada. No momento o Projeto de Lei já passou pela Câmara de Deputados com emendas que não modificam sua essência e foi encaminhado ao Senado.

Aparentemente a greve dos servidores técnicos administrativos das universidades federais não levou a nenhuma conquista para a categoria. A Fasubra, Federação de Sindicatos de Trabalhadores em Educação das Universidades Brasileiras, promoveu uma saída organizada do movimento, pois, sem acordo, ultrapassou-se o prazo de inclusão de qualquer reajuste salarial pretendido no orçamento da União para o próximo ano. Independente das razões que poderiam justificar uma greve dos servidores técnicos administrativos, como o não cumprimento de acordo pactuado, a rejeição ao Projeto de Lei 1749/2011 parece ser um ponto de pauta a exigir, no mínimo, mais discussão nas universidades, pela amplitude de suas implicações.

O fato é que a grande maioria dos hospitais universitários do Sistema de Instituições Federais de Ensino Superior, IFES, não tem como oferecer serviços de alta complexidade com suas receitas orçamentárias e com a obrigação de atender 40 milhões de pacientes do Sistema Único de Saúde, SUS. Dentre eles, os de melhor desempenho em suas missões são os da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, e da Universidade Federal de São Paulo, Unifesp, o primeiro porque é pioneiro em uma concepção de empresa pública de direito privado, a qual inspira a criação da EBSERH, e o segundo porque é, em parte, mantido, por uma organização da sociedade civil, Sociedade de Amigos do Hospital São Paulo.

A greve nacional dos servidores técnicos administrativos do sistema IFES cometeu um equívoco ao propor um ponto de pauta que diz respeito a interesses acadêmicos e sociais mais amplos, como a rejeição ao Projeto de Lei 1749/2011. A Fasubra, que elaborou a pauta, o fez por razões tipicamente ideológicas: discordar da gestão do patrimônio público por parte de uma empresa. De outro lado, o movimento paredista dos servidores técnicos administrativos das universidades federais conseguiu, indiretamente, provar que a greve desta categoria não paralisou as universidades, que seguiram, com pequenas dificuldades aqui e acolá, seu calendário acadêmico de atividades de ensino, pesquisa e extensão. Isto permite a interpretação de que a alocação de servidores e seu quantitativo no âmbito das universidades federais estão a merecer análise.

Como prêmio de consolação, a Fasubra foi contemplada com um assento no Conselho de Administração da EBSERH, como prevê o artigo nove do Projeto de Lei 1749/2011. Aí cabe a pergunta: por que se deixou de incluir no conselho os sindicatos nacionais dos docentes do sistema IFES? Os professores, promovendo a formação de médicos, enfermeiros, farmacêuticos, nutricionistas etc., tanto quanto os servidores técnicos administrativos, estão também presentes nos hospitais universitários.

A paralisação / ocupação de instalações universitárias, inclusive reitorias, pelos estudantes, o segundo tipo de movimento paredista, é, por sua vez, um movimento com muito maior legitimidade. Reflete o mesmo a insatisfação com precariedades existentes em muitas universidades federais e também é reflexo de expectativas criadas em termos de assistência estudantil, que não se materializaram. Há inúmeras obras paralisadas em quase todas as universidades federais e o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, REUNI, na sua implantação centrou-se na quantidade de novos cursos e no aumento do número de matriculas. O quadro é tão dramático que conclusões de graduações estão ameaçadas por falta de laboratórios, equipamentos comunitários, hospitais etc., não concluídos.

Diante deste quadro há, paradoxalmente, manifestações díspares por parte de dirigentes universitários. De um lado, em 14 de setembro último, durante a abertura do encontro da Andifes, foro de dirigentes do Sistema IFES, o reitor João Luiz Martins (Ufop), declarou que é impossível pensar numa expansão qualificada da universidade sem pensar na pós-graduação, na pesquisa, na geração de conhecimento e formação de recursos humanos. "Nenhuma expansão pode ser feita sem ter qualidade. Não dá para pensarmos em expansão da graduação sem pensar também na Pós-Graduação" (sic), afirmou João Luiz.

Também em setembro, no dia 13, o reitor Paulo Gabriel Nacif (UFRB), em um evento interno de pós-graduação, pesquisa e iniciação científica declarou que: "construímos a maior autarquia do interior do Nordeste Brasileiro". Nenhuma referência foi feita ao imperativo da qualidade, na ocasião, em que pese a UFRB ser "vice lanterninha" no ranking de qualidade do MEC. Talvez por isso as instalações administrativas da UFRB estejam, há mais de 100 dias, ocupadas pelos estudantes e, em nível nacional, quiçá o descuido do MEC com a excelência universitária, tenha também provocado protestos como as vaias dos estudantes ao Ministro Haddad no dia 18 de setembro último, em São Paulo. Urge refletir sobre o que foi dito pelo reitor da Universidade Federal de Ouro Preto e sobre os nexos entre sua declaração e os movimentos paredistas.

Amilcar Baiardi é professor titular da UFBA e da UFRB e doutor em economia pela Unicamp. Foi professor visitante da Universidade de Aarhus, Dinamarca, e da Universidade de Bolonha, Itália e é membro da Academia de Ciências da Bahia.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

FERNANDO VELOSO - Educação e a crise financeira

Demanda por trabalhadores qualificados cresceu acima da oferta de trabalhadores com diploma universitário



As diversas interpretações da crise financeira internacional em geral enfatizam desequilíbrios macroeconômicos e falhas na regulação do sistema financeiro. No livro "Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy", o economista Raghuram Rajan, da Universidade de Chicago, acrescenta um elemento surpreendente: a ineficiência do sistema educacional americano.
Nas últimas três décadas, houve uma elevação significativa da desigualdade de renda nos Estados Unidos.
Isso decorreu principalmente de um grande aumento da desigualdade salarial.
Por exemplo, em 1975 o salário de um trabalhador no grupo dos 10% mais ricos correspondia a cerca de três vezes o salário de um trabalhador dentre os 10% mais pobres. Em 2005, essa diferença passou a ser de cinco vezes. No mesmo período, o salário dos 10% mais ricos aumentou mais de 60% em relação ao salário médio.
Um dos principais fatores responsáveis pela elevação da desigualdade foi um aumento expressivo do salário de trabalhadores com ensino superior completo em relação ao de trabalhadores que concluíram apenas o ensino médio.
Isso decorreu do fato de que a demanda por trabalhadores com maior qualificação, associada ao uso de novas tecnologias, cresceu muito acima da oferta de trabalhadores com diploma universitário.
Embora restrições financeiras possam ter contribuído para o lento aumento da oferta de trabalhadores com ensino superior completo, pesquisas mostram que o principal motivo foi o baixo nível de aprendizagem ao final do ensino médio.
Outra manifestação do descompasso entre demanda e oferta de trabalho qualificado nos Estados Unidos é o fato de que, muitas vezes, trabalhadores demitidos não possuem as qualificações necessárias para preencher novas vagas.
Essa é uma das razões pelas quais, desde o início da década de 90, a recuperação dos empregos perdidos após as recessões tem sido cada vez mais lenta.
Segundo Rajan, diante das pressões resultantes do aumento da desigualdade e das dificuldades de se produzir avanços rápidos na qualidade da educação, a solução política foi expandir de forma maciça o crédito para a aquisição da casa própria.
Além disso, Rajan argumenta que a dificuldade da economia americana em gerar empregos após a recessão de 2001 levou o Banco Central (Fed) a manter as taxas de juros baixas por um tempo excessivamente longo.
Em resumo, a elevação das tensões sociais associada às dificuldades do sistema educacional dos Estados Unidos em prover educação de qualidade teve um papel relevante na crise financeira. Isso ajuda a entender a importância atual do tema da reforma da educação no debate público americano.

FERNANDO VELOSO, 44, é pesquisador do Ibre/FGV
fernando.veloso@fgv.br

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A UNE deles e a nossa - DEMÉTRIO MAGNOLI

Ao contrário da chilena, a brasileira, estatizada pelo lulismo, prefere os palácios às ruas

Os estudantes chilenos têm razão, ao menos na sua reivindicação original, de reforma radical do sistema de ensino do país. Isso é o que pensa uma ampla maioria dos cidadãos, segundo informam as pesquisas de opinião. Todas as evidências disponíveis revelam que o modelo ultraliberal imposto à educação pela ditadura de Augusto Pinochet é incompatível com a democracia. O surpreendente não é a revolta que se espraia pelas cidades do Chile, mas a longa convivência dos governos de centro-esquerda da Concertación com um modelo intolerável.

A Lei Orgânica Constitucional de Educação, de Pinochet, adotada em 1980, municipalizou as escolas públicas, desde a pré-escola até o secundário, e criou um sistema de vouchers (abonos) pelo qual o governo subsidia, em valor uniforme, os gastos familiares com a educação. Dessa lei surgiu um modelo baseado em três tipos de escolas: públicas (municipais), privadas subsidiadas e privadas pagas. Todas as escolas públicas passaram a gozar de autonomia pedagógica, com a abolição dos currículos nacionais, e de autonomia administrativa, com a supressão da contratação pública de professores, mesmo nas escolas municipais.

Milton Friedman, o "pai fundador" da célebre Escola de Chicago, visitara Santiago em 1975 e oferecera a Pinochet um esboço de programa econômico. Os "Chicago Boys", economistas chilenos formados nos EUA sob a tutela de Friedman, conduziram as reformas, inspiradas no dogma do mercado perfeito. A lei educacional estendeu o dogma à esfera do ensino, fazendo do Chile um campo de provas de uma doutrina que enxerga no Estado a fonte exclusiva do Mal. No novo "mercado da educação", a livre concorrência produziria um máximo de eficiência econômica e de qualidade de ensino. A experiência fracassou em tudo, exceto na sua meta implícita de comprimir os gastos nacionais com a educação.

Os testes internacionais do Pisa, promovidos pela OCDE, mostram que a educação chilena é a menos ruim da América Latina (excluindo o México) - mas ela provavelmente já ocupava tal lugar antes de Pinochet. Contudo atestam também que, entre os 65 países participantes, o Chile figura na penúltima posição em termos da variância dos resultados segundo a classe de renda dos estudantes. Os alunos de escolas privadas pagas alcançam resultados invejáveis, enquanto seus colegas das escolas municipais não atingem os níveis mínimos de aprendizado em leitura, matemática e ciências. No meio do caminho situam-se os jovens das escolas privadas subsidiadas.

Há um rígido, malévolo apartheid educacional, que brilha à luz inclemente das estatísticas desagregadas. Nos testes do Pisa, as escolas privadas subsidiadas dos bairros de classe média saem-se bem melhor que as escolas similares das periferias populares. A explicação é simples: nas primeiras, ao contrário das segundas, as famílias pagam taxas complementares ao valor dos vouchers. As escolas privadas das periferias não têm nenhum incentivo para oferecer um ensino melhor que o das arruinadas escolas públicas. Aprende-se precisamente aquilo que se paga - eis a essência do modelo educacional darwinista implantado no Chile.

A mensagem original dos estudantes chilenos já quase não é audível, após a onda de repressão policial que desviou os protestos para os arredores da exigência de derrubada do governo de Sebastián Piñera. As nações introduziram a educação pública no quadrante histórico da consagração dos direitos de cidadania. Na direção oposta, os "Chicago Boys" definiram os jovens como consumidores de educação. Os estudantes chilenos deflagraram seu movimento dizendo que a educação pública não deve ser identificada com um bem econômico comum e submetida à lógica dos mecanismos de oferta e procura. Eles estão rejeitando um sistema que apaga a palavra "cidadão", substituindo-a pelo termo "consumidor".

O núcleo da mensagem chilena serve perfeitamente para o Brasil. Por aqui, nas duas últimas décadas os gastos com educação não se reduziram, mas aumentaram. Contudo eles não chegam aos professores que estão nas salas de aula. Sob um sistema perverso, os mestres ganham mal e não são avaliados segundo critérios de mérito. O Chile é aqui: em média, os alunos de escolas públicas aprendem muito menos que os das escolas privadas.

No Brasil não temos vouchers, mas um modelo de educação pública estatal altamente burocratizado no qual se acomodam tanto os interesses das elites políticas estaduais e locais quanto o poder corporativo dos sindicatos de professores. No fim das contas, convivemos com um apartheid educacional inflexível, que se estende da pré-escola ao ensino superior. O Chile é aqui: a renda familiar determina a qualidade de ensino recebida pelos jovens.

Entretanto, num aspecto crucial o Chile não é aqui. As entidades estudantis chilenas que organizam os protestos em curso já fustigavam, há anos, o governo de centro-esquerda de Michelle Bachelet. No Brasil, ao contrário, as principais entidades estudantis funcionam como extensões do PT e do PCdoB. Financiadas pelo governo, a UNE e congêneres incensam seus patronos, não se furtando nem mesmo a aplaudir os disfarces mais óbvios de nosso apartheid educacional. Elas celebram o ProUni, pelo qual o governo concede "vouchers fiscais" aos empresários do ensino superior enquanto condena os estudantes de baixa renda a preencher vagas ociosas nas piores faculdades privadas. Na mesma linha, celebram as cotas raciais que separam jovens oriundos das escolas públicas pela cor da pele, introduzindo uma fronteira política de raça na consciência dos filhos de trabalhadores.

A "UNE" deles tem razão. Os líderes estudantis chilenos, apoiados por uma maioria esmagadora dos cidadãos, estão dobrando a resistência do governo. A "nossa" UNE, estatizada pelo lulismo, prefere os palácios às ruas. João Carlos Di Genio deveria agradecer por escrito.

Orientação profissional e ocupacional - ROBERTO MACEDO

Metade dos alunos do 3.º ano não sabe qual carreira seguir foi o título de matéria neste jornal no dia 22 do mês passado, baseada numa pesquisa com alunos desse ano do ensino médio. Ela de novo revelou a enorme carência de orientação profissional no Brasil.

Sei que algumas escolas privadas de ensino médio oferecem essa orientação, às vezes sob a forma simplista de uma "semana das profissões", na qual especialistas de várias áreas falam de suas experiências. Uma das dificuldades dessa programação é que os palestrantes são usualmente profissionais de sucesso e, entre outros aspectos, também seria importante discutir experiências dos que não se saíram bem, até mudando de profissão.

Nas escolas públicas, nem mesmo ciclos desse tipo são comuns e, em geral, os estudantes não têm recursos para buscar orientação individual e especializada, a qual, aliás, não é comumente buscada nem mesmo pelas famílias de maior renda. Usualmente, o jovem procura informações por si mesmo, as famílias costumam influir na escolha, mas a dúvida é comum, e é um dos ingredientes da alta taxa de evasão de cursos, que a reportagem também menciona.

A orientação profissional ou vocacional fornece informações sobre as várias profissões e no orientando identifica suas aptidões e seus interesses específicos. Por exemplo, como se sentiria como um médico, um engenheiro ou um economista. Finalmente, depois de muita conversa eventualmente apoiada por testes, identifica-se a vocação profissional, num exercício que muitas vezes não converge para uma única opção.

À dificuldade de escolher sobrepõe-se a natureza do ensino superior adotado no Brasil, de profissionalização precoce, levando o jovem a passar por esse suplício da escolha numa idade em que não está preparado para isso, tanto por escassez de informações como pela imaturidade típica da idade.

Tal escolha poderia ser adiada por dois anos de um ciclo básico no ensino superior, de natureza interdisciplinar, e a opção por uma especialização só ocorreria ao final dele. Mesmo então, contudo, ainda não deveria ser de grande profundidade, a qual ficaria para a fase de pós-graduação. Esse é um sistema que foi inicialmente adotado por importantes instituições de ensino superior nos EUA e, por seu sucesso, se tem disseminado por outros países.

Também não há no Brasil, de modo geral, a possibilidade de mudança de curso sem novo exame vestibular. Não sem razão, são comuns as já citadas desistências de curso, e há a insatisfação que marca aqueles que carregam a dúvida por toda a vida.

Como se isso não bastasse, falta também orientação ocupacional, com a profissional pressupondo que a pessoa encontrará uma ocupação típica da profissão a que chegou. Ocupação, cargo ou função é atividade que a pessoa de fato exerce ou nela trabalha. Por exemplo, economista, torneiro mecânico e advogado são profissões; gerente de banco, presidente da República e embaixador são ocupações.

Como seria a orientação ocupacional? Deveria ter como base um amplo levantamento das várias ocupações, seus requisitos educacionais (a exigência de curso superior não significa que o diploma seja de profissão específica à ocupação), forma de acesso, remuneração, estimativas do número de ocupantes, perspectivas de vagas e outras informações. Entre elas, a de como ajustar um desses diplomas a uma lista maior de ocupações. Por exemplo, um curso de pós-graduação em administração, mesmo de curta duração, facilitaria a transição de um químico para ocupações administrativas. Esse levantamento bem abrangente deveria ser uma iniciativa governamental. Teria como objetivo dar uma boa visão de como funciona o mercado de trabalho, e facilitaria a busca de oportunidades nesse mercado.

Para o conjunto de formandos é impossível haver um perfeito e generalizado acoplamento entre profissão e a ocupação encontrada, como se aquela fosse uma chave adequada a uma fechadura específica. O resultado é que muitos profissionais trabalham em ocupações "atípicas" de suas profissões. Coloquei aspas porque isso não deve ser visto como uma anormalidade e muito menos como um problema. Um caso comum é o dos muitos engenheiros que se tornaram fiscais de tributos ou atuam no setor administrativo de empresas ou em ocupações do setor financeiro. A propósito, dados dos censos de 1980, 1991 e 2000 evidenciaram um crescente descasamento entre as profissões e suas ocupações típicas. Juntamente com outros interessados, aguardo a divulgação dos dados detalhados do censo de 2010 para uma nova avaliação.

A mesma reportagem trata de caso em que a falta de orientação ocupacional pode levar a decisões arriscadas. É o de um estudante que deixou um curso de engenharia de produção pelo de mecatrônica, também abandonado ao saber que "o campo de atuação seria a indústria". Acabou optando por medicina veterinária, afirmando gostar de bichos, e sonhando em trabalhar com "melhoramento genético de animais de grande porte".

Ora, sei que ocupacionalmente os dois primeiros cursos - em particular o de engenharia - oferecem um leque maior de opções ocupacionais do que o finalmente escolhido, muitas delas em áreas administrativas das indústrias, ou mesmo fora delas. Ademais, mesmo um veterinário poderá ter a indústria como seu empregador, numa ocupação ligada à sua especialidade ou não, como a de vendedor de produtos farmacêuticos.

Creio que a orientação também ocupacional aliviaria uma boa parte das incertezas e das tensões da autoritária e limitada forma de escolha a que hoje os jovens são submetidos no Brasil. Mostraria que o mercado é muito mais flexível ao acolher trabalhadores do que o sistema de ensino superior ao receber os seus estudantes.