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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Estudo da Academia Brasileira de Ciências (ABC) diz que Brasil usa métodos ineficazes para alfabetizar

Lançamento de livro sobre educação infantil acontece em seminário internacional promovido pela FGV.

Amanhã (26), será lançado livro com as conclusões de cinco anos de estudos do Grupo de Trabalho sobre Educação Infantil, criado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) em 2007. O lançamento acontece durante seminário internacional promovido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), que traz uma pauta focada em alfabetização, um dos principais temas do grupo e um dos maiores problemas da educação brasileira.

Integrado por especialistas em aprendizagem de diferentes áreas: neurociências, psicologia cognitiva, economia, o GT passou anos compilando estudos internacionais e analisando as mudanças nas diretrizes de políticas de alfabetização de diferentes países que alteraram suas estratégias nessa área em função dessas evidências científicas. Entre eles França, Inglaterra, EUA, Austrália, Israel e Finlândia.

De acordo com a publicação, o Brasil usa métodos de alfabetização superados, cuja ineficácia já foi exaustivamente comprovada por inúmeros estudos científicos internacionais, que vêm orientando há duas décadas profundas mudanças nas políticas de alfabetização de diversos países. Os métodos fônicos, baseados em instruções explícitas sobre a relação entre grafema (letra) e fonema (som), são, segundo esses estudos, os que apresentam melhores resultados quando se trata de alfabetizar. Outra constatação científica que contradiz as práticas brasileiras diz respeito a idade para alfabetizar. As pesquisas indicam que seis anos é a idade ideal, na qual essa aprendizagem é mais fácil.

Seminário - O relatório do grupo, que inclui ainda estudos sobre o desenvolvimento infantil em idade pré-escolar, será lançado pela ABC durante seminário internacional promovido pela FGV. O encontro contará com a presença do prêmio Nobel de Economia, James Heckman, autor de um estudo que mostra que a taxa de retorno (tanto em termos de desenvolvimento e renda dos indivíduos como das nações) obtida pelos investimentos em educação é tanto maior quanto mais precoce a faixa etária focada por esses investimentos.

Este é o quarto seminário científico internacional realizado no Brasil este ano que apresenta conclusão similar sobre a alfabetização no Brasil. O primeiro, promovido pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) em São Paulo reuniu 50 palestrantes de vários países. Apesar disso, o que ainda se ouve no Brasil é "esta polêmica entre construtivistas e defensores do método fônico não tem nada de novo; está provado que método não tem importância, o que conta é a competência do professor".

Não é o que dizem os levantamentos de estudos científicos feitos pelos governos de vários países e agora compilados pelo grupo da ABC. O mais grave é que os estudos constatam que o uso de métodos de alfabetização ineficientes tem impacto negativo muito mais forte sobre as crianças de classes socioeconômicas mais baixas.

O professor João Batista Oliveira, psicólogo especialista em educação e presidente do Instituto Alfa e Beto (IAB) apresentará no seminário as conclusões do grupo de estudo na área da alfabetização.

O tema é bem oportuno. Afinal, na última avaliação de leitura do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, de 2009), o Brasil ficou em 54º lugar num ranking de 65 países, atrás de nações como Sérvia Romênia e Trinidad Tobago. O exame, que analisa a capacidade de leitura de estudantes de 15 anos da rede pública, concluiu que a maioria deles no Brasil apenas identifica palavras ou frases simples, não sendo capazes de compreender textos. Numa classificação de 1 a 5, em que 5 equivale à leitura fluente e 1 à capacidade de identificar palavras, a média nacional (de alunos de 15 anos!) ficou em 2, mas com grande contingente no nível 1, que é onde teria ficado a média global caso tivessem sido considerados apenas os meninos. Segundo a Prova Brasil, metade dos estudantes de 5º ano são analfabetos.

Inovação e empresas

Artigo de Eloi S. Garcia enviado ao JC Email pelo autor.

O setor produtivo brasileiro ainda está engatinhando na cultura da inovação. Temos poucos exemplos de Universidades e Institutos de Pesquisa que atraem o empresariado nacional, em busca de pesquisa, processos e projetos inovadores e rentáveis para o mercado. Nosso sistema de inovação é frágil por sua estrutura empresarial e pela capacitação setorial, dominadas geralmente por empresas grandes, que fazem o desenvolvimento tecnológico fora do país. Sem empresas não há inovação.

Há muitas formas de considerar a inovação. Inovar não é somente utilizar a alta tecnologia. Às vezes uma nova interpretação de algo antigo ou o uso de um método velho de maneira inteligente são mais inovadores que um novo material ou uma tecnologia sofisticada. Inovar é também a capacidade de colocar um produto já conhecido, tornando-o de qualidade melhor e mais barato do que o original e aceito pelo comercio. Inovar é desenvolver novos produtos e processos a capacidade de chegar a um futuro planejado de maneira clara e produtiva. Inovar não é uma alternativa, é o caminho. Assim, o conceito de inovação deve ser ampliado, utilizando-se tanto para a inovação empresarial como a inovação social. Se mudar a cultura e desenvolver a criatividade surgirão caminhos alternativos para a evolução do setor.

A inovação, medida pela passagem da invenção de certo produto, sua inovação e utilização, tem sido cada dia mais rápida. A bateria de carro foi descoberta em 1780 e utilizada em 1859; a lâmpada foi descoberta em 1802 e passou a ser útil para a humanidade em 1873; o zíper (que usamos em nossas roupas) foi descoberto em 1891 e utilizado em 1923; Santos Dumont voou pela primeira vez no 14 bis em 1906 e em 1969, Armstrong pisou na lua; a penicilina foi descoberta em 1922 e sua utilização começou em 1941, durante a segunda guerra mundial; o transistor for descoberto em 1940, e passou a ser um bem para a humanidade em 1950; e agora, o coquetel para tratamento da AIDS que em poucos meses passou a ser útil para a sociedade. Este é o mundo em que vivemos, este é o planeta que temos que compreender.

O bom entendedor sabe que a inovação não é espontânea, não nasce do nada. Somos um país rico em cérebros, mas que não tem a cultura e a tradição de levar os descobrimentos ao mundo das empresas. Os temores e suspeitas nos levam a pensar de que criar uma empresa inovadora é muito difícil. Inovação também é risco. Mas algumas empresas de inovação interpretam a crise como uma oportunidade. Para que nosso País tenha uma economia sustentável e seja forte e internacionalizada, devemos alcançar uma balança tecnológica positiva baseada na inovação e no conhecimento e que seja capaz de atrair, reter talentos e gerar empregados de alto valor agregado.

A inovação requer uma estratégia política de Estado, e não de Governo. Esta política envolve a área de educação, a ciência e tecnologia, a indústria e o comércio, a relação público-privado, um forte planejamento que permita estabelecer as "regras do jogo" para os anos vindouros e fomente a produtividade. Esta estratégia da inovação deverá afetar numerosos elementos da sociedade entre os quais se podem citar: a percepção social da inovação, a valorização do êxito empresarial-tecnológico, a valorização do fracasso para não inibir as novas ideias e os mecanismos de defesa da propriedade intelectual. Sem estes pontos não haverá inovação.

Eloi S. Garcia, ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), é pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), assessor da Presidência do Inmetro, e membro da Academia Brasileira de Ciências.