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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Novo escolhido para a Ciência possui perfil técnico

SABINE RIGHETTIDE SÃO PAULO


A escolha do físico Marco Antonio Raupp para comandar o Ministério da Ciência e Tecnologia mostra uma preferência da presidente Dilma Rousseff por um perfil técnico e gerencial para a pasta.Raupp carrega no seu currículo passagens pelo comando do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e da AEB (Agência Espacial Brasileira). Também é pesquisador-titular do LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica).Foi presidente da SPBC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), principal entidade científica do país. É a SBPC que encabeça as discussões correntes sobre a política científica e tecnológica, e atua como uma espécie de interlocutor entre os cientistas e o governo.Mas foi na AEB que Raupp ganhou mais projeção. À frente da instituição nos últimos dez meses, onde esteve por indicação de Aloizio Mercadante, Raupp tentou fazer uma espécie de "varredura".A missão dele era sincronizar o complicado calendário espacial brasileiro, que coleciona atrasos no envio de satélites nacionais e está distante do setor privado. "Falta uma Embraer no setor espacial", ele costumava dizer.Uma das ideias mais ousadas do físico ao sair do Inpe para assumir a AEB foi tentar unir as duas instituições. Para Raupp, não faz sentido o país ter uma instituição para fazer pesquisa, formar pessoas e projetar satélites (o Inpe) e outra para coordenar a política espacial (a AEB).Do ponto de vista acadêmico, Raupp também tem um currículo denso. Fez doutorado em matemática na Universidade de Chicago e é livre-docente pela USP.Também foi professor adjunto da UnB (Universidade de Brasília) e professor do IME (Instituto de Matemática e Estatística) da USP.Além de sua ligação com a pesquisa espacial, Raupp gosta de assuntos ligados à inovação. Ele segue a linha de Mercadante na tentativa de ligar o setor acadêmico ao privado.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

José Maria Alves da Silva - A educação entre o MEC e o MCT

Transferir o ensino superior para a pasta de Ciência enfatiza a preparação só para o mundo do trabalho, em detrimento da política, da filosofia e das artes



O senador Cristovam Buarque é autor de um projeto que propõe a transferência das instituições federais de ensino superior do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). As justificativas apresentadas pressupõem vantagens em direcionar o foco do MEC para a educação básica. O MCT ficaria responsável por gerir o ensino superior.

Segundo o autor, a mudança produziria um desejável equilíbrio entre o MEC e o MCT em termos de importância orçamentária e de estruturas administrativas. Ele afirma ainda que não existiriam gastos públicos adicionais, bastando remanejar funcionários entre os dois ministérios já existentes.

A proposta foi discutida e amplamente rejeitada pelos participantes do seminário "Ciência e tecnologia no século 21", que foi realizado em Brasília, em novembro. O Sindicato Nacional dos Docentes de Ensino Superior (Andes-SN), que organizou o evento, também já havia analisado o projeto e levantado várias objeções.

A nosso ver, o espírito do projeto reflete uma concepção estreita da educação. Ela enfatiza a preparação do homem para o mundo do trabalho, em detrimento de outras dimensões da vida.

Assim, se for aprovado, o projeto irá contribuir para ampliar o já grande viés tecnológico das universidades brasileiras. Por causa dele, estão sendo formados profissionais de nível superior que são até competentes tecnicamente, mas que, em geral, têm formação ruim em outros campos do saber, como a política, a filosofia e as artes.

Esse tipo de "carência educacional" faz com que a contribuição da tecnologia para o desenvolvimento econômico seja anulada pela deficiência ética de engenheiros, médicos, políticos e até mesmo professores e magistrados -os juízes que vendem sentenças também saíram das melhores universidades e passaram em disputadíssimos concursos públicos.

Uma das funções mais importantes que as universidades brasileiras podem exercer é formar docentes qualificados para os ensinos médio e fundamental. Será que tal função seria mais bem exercida se ela estivesse sob responsabilidade do MCT?

Por último, cabe lembrar que onde não há boa educação não pode haver boa ciência e tecnologia. Que país hoje bem servido em ciência e tecnologia não priorizou antes a educação e a cultura?

O que é preciso para colocar o país na rota do desenvolvimento, como muita gente abalizada sabe, é uma revolução na educação. É assim que se acaba promovendo a ciência e a tecnologia.

Mas, para isso, é preciso implantar algo que nunca existiu no Brasil: um sistema de planejamento integrado dos três níveis de ensino, distribuídos entre os entes federativos de acordo com os dispositivos constitucionais vigentes, mas sob a coordenação e a rigorosa supervisão do governo central. Não é "esvaziando" o MEC que se vai chegar lá, muito pelo contrário.

JOSÉ MARIA ALVES DA SILVA, 59, é doutor em economia e professor da Universidade Federal de Viçosa

sábado, 19 de novembro de 2011

Pesquisa cria 'superisopor' feito de metal

Pouco denso e muito leve, composto por níquel, o material também é elástico como a borracha, diz grupo nos EUA
O produto foi criado em pesquisa financiada por Boeing e GM e poderia ser aplicado em bateria ou como amortecedor
RAFAEL GARCIA
DE WASHINGTON


Um novo tipo de material ultraleve, com um centésimo da densidade do isopor, combina a resistência dos metais com a elasticidade da borracha. O produto, criado em pesquisas financiadas pela Boeing e pela GM, promete aplicações que vão de amortecimento de choque a baterias elétricas sofisticadas.
Composto por hastes tubulares microscópicas de níquel, o material foi capaz de retomar 98% de sua forma original após ser comprimido a 50% de seu tamanho.

Cientistas dos Laboratórios HRL (centro de pesquisa que as duas empresas mantêm na Califórnia) descrevem essa microarmação metálica em estudo na revista "Science".

"A tabela periódica tem um número limitado de elementos, e e a ciência já está esgotando as possibilidade sobre o que é possível fazer com novas misturas e novas ligas metálicas", disse à Folha Tobias Schaedler, cientista autor da invenção. "O que estamos fazendo agora é levar a produção de material a um novo nível, no qual aproveitamos materiais sólidos e ligas maciças, mas os estruturamos de maneira ordenada."

A nova microarmação de níquel, que possui detalhes microscópicos e nanoscópicos (da escala de milionésimos de milímetro) é feita a partir de um material especial, um tiol, polímero líquido que vira sólido ao ser irradiado com luz ultravioleta.

Desenhando uma armação com raios luminosos dentro de um tanque, os cientistas despejam o tiol no recipiente, e a substância se solidifica onde os feixes de luz correm, formando micro-hastes.
Depois, os cientistas as recobrem com níquel e retiram polímero de dentro, restando só a armação oca de microtubos de metal.

Apesar de ser altamente resistente, 99,99% do produto é puro ar, por isso fica tão leve -só 0,9 miligramas por centímetro cúbico. Segundo os cientistas, todo esse vazio torna o material interessante também em placas de isolamento acústico e térmico.

Schaedler diz que a Boeing e a GM já estão utilizando o material em projetos novos, mas ainda não pode revelar quais são. "Você pode imaginar que um material tão leve seria extremamente útil dentro de qualquer coisa que voe", diz o cientista.

A microarmação de níquel superou tentativas anteriores de fazer materiais com as mesmas propriedades. Espumas metálicas e um gel sólido de sílica, por exemplo, conseguiram obter densidades até menores, mas foram esmigalhados quando submetidos à mesma pressão.

Schaedler diz que ainda não sabe exatamente quanta pressão o novo material aguenta, porque os testes iniciais se concentraram no estudo de elasticidade.

"É claro que nossa microarmação de níquel não é tão resistente quanto blocos maciços do mesmo metal, mas ela perde muito pouco da resistência se comparada a espumas metálicas, que têm estrutura aleatória."
Ele afirma que a inspiração para as microarmações veio, em parte, da arquitetura.

"Grandes edificações, como a Torre Eiffel, são muito fortes e muito leves graças à qualidade do projeto de suas estruturas arquitetônicas."

"Nós estamos tentando usar esse conceito agora ao estruturar materiais na escala micrométrica e nanométrica", disse o pesquisador.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Cresce número de jovens que priorizam o trabalho

Mais pessoas entre 18 e 22 anos têm deixado estudos de lado, mostra PNAD
Economia aquecida pode ter contribuído para decisão de buscar emprego antes de pensar na faculdade
ÉRICA FRAGA
DE SÃO PAULO



Leticia Moreira/Folhapress
Vinicius Lima, 19, que trabalha no HSBC
Vinicius Lima, 19, que trabalha no HSBC

Uma parcela cada vez maior de jovens entre 18 e 22 anos tem engavetado ou abandonado os planos de estudo para apenas trabalhar.

Entre os homens dessa faixa etária, mais da metade já se dedica exclusivamente ao trabalho -o percentual aumentou de 46,8% em 2001 para 51,1% em 2009. Já as mulheres que só trabalham representavam 31% do total em 2009 contra 27,5% em 2001.

Os dados são da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e foram levantados pelo economista Naercio Menezes Filho, do Insper.

Segundo especialistas, o fato de que mais jovens têm conseguido terminar a escola com a idade de 17 anos ajuda a explicar essa tendência. A fatia de alunos "atrasados" cursando o ensino médio caiu de 52,2% do total em 1992 para 32,9% em 2009.

"Se o jovem tem 18, 19 anos e ainda está no ensino médio pode ter de adiar os planos de trabalhar ou acabar conciliando estudo e trabalho", diz Menezes Filho.

ECONOMIA AQUECIDA
O crescimento mais acelerado da economia brasileira nos últimos anos pode estar contribuindo para a decisão dos jovens de ir direto da escola para o mercado de trabalho, pulando -ainda que temporariamente- a etapa da faculdade.

O contexto de maiores oportunidades de negócios foi, por exemplo, um dos fatores que levaram Filipe Travassos da Silva, 22, a assumir o negócio de terraplenagem do pai, que queria se aposentar. Ele tinha feito um curso de tecnólogo em informática.

"Eu sempre quis me tornar independente, ter meu próprio dinheiro", diz Silva, que considera fazer um curso curto de empreendedorismo, mas não cursar faculdade.

Há casos, no entanto, de jovens que não estão no ensino superior por falta de dinheiro.
"Eu queria fazer publicidade, mas não tinha dinheiro para pagar ", afirma Vinicius Sampaio Lima, 19.
Lima, que terminou o ensino médio com 18 anos e está trabalhando na área de expedição do HSBC, não tentou entrar em uma universidade pública. Ele espera conseguir juntar dinheiro para pagar um curso de fotografia.

Rodrigo Capelato, diretor do Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo), afirma que, com a expansão da classe média e o aumento de vagas em faculdades privadas, a procura por cursos até aumentou.

"Mas uma fatia grande de alunos acaba trancando o curso porque não consegue pagar a mensalidade ou porque escolhe o curso que pode pagar, mas não se identifica com o mesmo", diz ele.
Yasmin Hussein Chamas, 19, diz que tem vontade de estudar psicologia, mas ouve dizer que "não dá grana". Ela trabalha em uma empresa de telemarketing.


PREOCUPAÇÃO
O afastamento entre os jovens e o ensino superior preocupa especialistas. O problema é agravado pelo fato de que também tem aumentado o percentual de jovens de 18 a 22 anos que não está nem estudando nem trabalhando.
"Os dados são assustadores. Essa é a faixa onde as pessoas estão em seu curso universitário. E as empresas buscam pessoas cada vez mais bem formadas", diz José Tolovi Jr., CEO global da organização Great Place to Work.


Análise

Abertura da economia nos anos 1990 teve efeito sobre os empregos no Brasil

JOSÉ MÁRCIO CAMARGO
ESPECIAL PARA A FOLHA

A abertura da economia à concorrência internacional na década de 90, ao mesmo tempo em que aumentou a produtividade e a competitividade da economia nacional, teve um efeito importante sobre o mercado de trabalho brasileiro.

A redução de tarifas de importação e a eliminação de barreiras não tarifárias geraram aumento de produtividade, forte queda nos preços dos produtos industriais e levaram a um aumento das importações desses bens.

Com isso, muitos setores que sobreviviam devido aos elevados níveis de tarifas e de restrições não tarifárias às importações desapareceram. A redução dos preços dos bens de capital incentivou o aumento dos investimentos.

Inovações tecnológicas que normalmente vêm incorporadas aos bens de capital foram introduzidas na economia. Setores que tinham vantagens comparativas claras, como a agroindústria, contudo, tiveram bom desempenho no período.

Tais mudanças geraram bem-estar para a sociedade brasileira, mas tiveram efeitos importantes sobre o mercado de trabalho do país.

MUDANÇAS
A demanda por algumas ocupações desapareceu, enquanto outras se tornaram escassas. Como é muito oneroso requalificar trabalhadores adultos, a taxa de desemprego deles aumenta.
Não obstante, a adaptação da estrutura de oferta de qualificação depende de trabalhadores que se qualificam nas ocupações cuja oferta é escassa, o que aumenta as chances de terem sucesso no mercado de trabalho.

Esta nova geração de jovens, com mais acesso à educação e qualificação, começou a entrar no mercado de trabalho em 2000 fazendo com que a proporção de profissionais entre 17 e 22 anos que só trabalhavam aumentasse, como mostra o IBGE.


Ao mesmo tempo, o índice de jovens de 15 a 17 anos que só estudam, e que estudam e trabalham, também subiu.

O resultado, por fim, indica que uma parte importante dos jovens brasileiros continua a acreditar no investimento em capital humano como forma de ascensão social. Um bom sinal.

JOSÉ MÁRCIO CAMARGO é professor do Departamento de Economia da PUC/Rio e economista da Opus Investimentos

O ato de aprender e ensinar, questão ética

Artigo de Malvina Tuttman na Folha de São Paulo de hoje (14).

Pensar o significado da educação implica ir além de uma observação simplista, fragmentada, que se ocupa, apenas, em analisar partes do processo educacional. É necessário reeducar o modo de olhar e perceber os princípios e os valores que estão subjacentes às práticas em exercício nas instituições de ensino. Refiro-me, especialmente, à questão da ética.



Paulo Freire, em suas obras "Pedagogia da Autonomia" e "Pedagogia da Indignação", de modo incisivo, aborda essa temática denominada por ele de ética universal. Freire aponta que os educadores devem exercitar uma "ética inseparável da prática educativa". Esse exercício deve se concretizar no cotidiano, na prática diária. Ainda, segundo o autor, é preciso que o educador possa "testemunhá-la (a ética), vivaz, aos educandos". Fortalecida por suas palavras, indago-me: o que estará pautando o ato de ensinar e aprender em nossas escolas?



O fato isolado da apropriação indevida de questões sigilosas de um exame nacional me faz, enquanto educadora, refletir sobre a atualidade dos pensamentos de Paulo Freire em relação a essa atitude. Onde estão os princípios da solidariedade? O fortalecimento do espírito público? Será que a ética do mercado, já denunciada por Freire, que se atrela a interesses pessoais de uma pequena parcela da sociedade brasileira, está se sobrepondo à dignidade que deve pautar a ética universal defendida por ele?



Tão importante quanto avaliar todo o processo de elaboração ou aplicação de um exame ou algo similar é rever as atitudes, as formas de agir de educadores. Isso também deve ser pautado pela sociedade. Que cidadãos estamos formando quando expomos centenas de estudantes ao constrangimento de receber e ocultar informações privilegiadas? Queremos que valores como a mentira e a fraude façam parte dos ensinamentos às futuras lideranças do nosso País?



É gratificante saber, entretanto, que, apesar de possíveis influências negativas, jovens de 16, 17 anos já têm presentes em sua formação a preocupação com o outro, com o respeito à verdade. Pude perceber isso quando alunos, indignados, procuraram o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) sem receio de expor livremente a verdade. Nesse momento, senti a força de outro tipo de educação, que vai além da escolar: a educação familiar. É preciso, mais do que nunca, fortalecer a eticidade. O currículo de nossas escolas deve considerar mais que conteúdos acadêmicos.



O nosso compromisso como educadores é o de agir coerentemente com princípios éticos. Paulo Freire nos ensina que a conduta do professor educa mais do que a simples abordagem conteudista. Como diz Freire, "a força do educador democrata está na sua coerência exemplar: ela que sustenta sua autoridade. O educador que diz uma coisa e faz outra, eticamente irresponsável, não é só ineficaz: é prejudicial".



Como professora há mais de 40 anos, posso afirmar que o que ocorreu em Fortaleza é um caso isolado. Porém, precisamos ficar atentos ao que está acontecendo. Todos somos responsáveis. Não deixemos que mudem o foco do real significado dessa lamentável realidade.



O Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que ocorreu nos dias 22 e 23 de outubro, acompanhado por toda a sociedade, já se mostrou exitoso, tanto do ponto de vista pedagógico como operacional. O que está em questão não é o Enem, e sim o comportamento que fere a ética de profissionais que se intitulam educadores.



O Inep tem a clareza de que é preciso, cada vez mais, aprimorar todo o processo. Ainda há muitas questões a serem aprofundadas, e esse instituto está pronto para a tarefa.



Malvina Tuttman é presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Foi reitora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

Fernando Veloso - Qualidade na educação infantil

Dar atenção às crianças de 0 a 5 anos significa investir na eficácia da escola e no futuro desses jovens
A literatura acadêmica mostra que investir na educação infantil pode gerar vários benefícios.

Pesquisas em neurociência mostram que o aprendizado acontece com mais facilidade na primeira infância do que em estágios posteriores da vida da criança.

Além disso, como a aprendizagem em cada nível de ensino depende do conhecimento acumulado em estágios anteriores, a atenção dada à primeira infância aumenta a efetividade das escolas.
A educação dada a crianças de 0 a 5 anos também pode contribuir para o estímulo de determinadas características de comportamento e traços de personalidade, como sociabilidade, autoestima, persistência e motivação.

Vários estudos mostram que, além de melhorar o desempenho escolar, essas características comportamentais reduzem a probabilidade, no futuro, de envolvimento dessas crianças com drogas e de participação em atividades criminosas.

Nos últimos três anos, o Grupo de Trabalho sobre Educação Infantil da Academia Brasileira de Ciências, coordenado por Aloísio Araújo, dedicou-se ao estudo do tema, com a colaboração de especialistas de diversas áreas do conhecimento.

Os resultados foram divulgados em livro recém-lançado, "Aprendizagem Infantil: Uma Abordagem da Neurociência, Economia e Psicologia Cognitiva".

Além de mostrar as principais evidências científicas, o livro apresenta recomendações de políticas públicas para a educação infantil.

Em primeiro lugar, segundo a obra, as políticas devem procurar minimizar o efeito da condição socioeconômica dos pais sobre o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças.

Para isso, os programas voltados para as famílias menos favorecidas devem ser integrados e flexíveis, adaptando-se às suas diferentes necessidades e circunstâncias.

O livro também propõe o estabelecimento de mecanismos de regulação para as creches e as pré-escolas, de modo a assegurar que seja promovido o desenvolvimento integral da criança.

Isso envolve capacitação de professores no segmento de educação infantil, currículo estruturado, equipamentos, livros e infraestrutura adequada, além de um número de crianças por professor que permita uma atenção diferenciada para cada criança.

Os programas de educação infantil também devem promover o envolvimento dos pais na educação de seus filhos e estimular o hábito da leitura em casa.

Outra recomendação importante é incorporar as dimensões de desenvolvimento cognitivo e linguístico das crianças ao atendimento pré e pós-natal dos serviços de saúde pública e assistência social.

Em resumo, uma política de educação infantil de qualidade é algo muito diferente de simplesmente abrir vagas em creches e pré-escolas. Ela deve envolver um conjunto de ações integradas que promovam o desenvolvimento infantil em todas as suas dimensões.

FERNANDO VELOSO, 44, é pesquisador do IBRE/FGV.
fernando.veloso@fgv.br

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ensino amplo para mundo mais complexo - VIVIANE SENNA

Jovens oriundos de famílias desfavorecidas, mais expostas ao fracasso na escola e na vida, podem mudar seu script com processo educativo consistente

A mais importante constatação amadurecida no Seminário Educação para o Século 21, realizado em São Paulo na última terça-feira, é que precisamos dar um passo a mais na construção de uma educação pública de qualidade. Temos de continuar lutando para que as crianças e adolescentes sejam devidamente alfabetizados, dominem a escrita, a leitura e o cálculo, algo que ainda estamos longe de conseguir.
Mas temos de ir além, oferecendo já ao aluno um processo educativo que lhe permita desenvolver competências mais amplas, como a autonomia, a criatividade inovadora, a capacidade de trabalhar em equipe, a curiosidade investigativa, entre outras, denominadas academicamente como competências não cognitivas.
Participaram do seminário alguns dos maiores especialistas na ciência do aprendizado e do desenvolvimento humano, como James Heckman, ganhador do Nobel de Economia além de educadores, gestores, organismos multilaterais, organizações que trabalham com escolas e mobilização da sociedade.
Concordamos quanto ao papel duplamente positivo do desenvolvimento das competências não cognitivas na escola.
De um lado, impactam diretamente o desenvolvimento intelectual dos alunos e o seu desempenho; ao mesmo tempo, preparam crianças e adolescentes para lidar com as exigências do mundo do trabalho e da economia global, da participação social nas cidades e nas redes, diante de questões complexas das ciências e do ambiente, da ética, da democracia e da sustentabilidade. Elas sustentam os valores.
Estudos de neurocientistas e economistas demonstram estatisticamente que esse grupo de competências tem o mesmo poder que as competências cognitivas na proficiência dos alunos, medida pelas notas, pela redução do abandono e pela escolaridade final atingida.
Isso se comprova na experiência empírica e em pesquisas do Instituto Ayrton Senna, que hoje atende 2 milhões de alunos da rede pública em 1.300 municípios brasileiros.
As competências não cognitivas têm ainda maior impacto que as cognitivas na determinação do sucesso e dos níveis de bem-estar pessoal e social, tais como medidos pela redução nos níveis de criminalidade e tempo de desemprego, pela maior estabilidade conjugal e familiar, menor incidência de doenças como depressão, obesidade e alcoolismo e por maior longevidade.
Todo educador sabe que o processo educativo requer do aluno autoestima, perseverança e outras capacidades emocionais. O professor busca trabalhar com isso, mas esse esforço ainda não é nomeado e valorizado como tal. Sabemos que o trabalho para desenvolver as competências não cognitivas tem de envolver toda a rede escolar.
O currículo regular deve incorporar conteúdos, práticas de ensino e de gestão para conciliar o aprendizado das disciplinas e a construção de atributos pessoais múltiplos.
A melhor notícia que compartilhamos é que a ciência vem confirmando ser efetiva nessa transformação pessoal. Crianças e adolescentes de famílias desfavorecidas, mais expostas ao fracasso na escola e na vida, podem mudar seu script com um processo educativo consistente ao longo dos ensinos fundamental e médio.
A família e a comunidade são responsáveis, mas sabemos que a escola deve -e pode- ser uma grande força a romper o ciclo intergeracional de pobreza e desesperança.
Nosso seminário faz, portanto, uma convocação para que a escola possa oferecer, como política pública e em larga escala, uma educação que salde as dívidas acumuladas dos séculos 19 e 20 e que, ao mesmo tempo, habilite os alunos a viver plenamente, com valores e competências para fazer frente aos desafios do século 21.

VIVIANE SENNA, psicóloga, é presidente do Instituto Ayrton Senna.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Quando o médio é fundamental - WANDA ENGEL

Garantir que nossos jovens acessem, permaneçam e concluam o ensino médio passa a ser mais um desafio estratégico para a sociedade



Como sabemos, a educação brasileira é estruturada em etapas. Inicia-se na educação infantil, continua no chamado ensino fundamental -que, junto com o ensino médio, constitui o ensino básico.
A partir daí, segue-se, para poucos, o ensino superior.
É interessante observar que o ensino fundamental recebe esse nome por sua enorme importância no desenvolvimento de competências consideradas essenciais para a vida. Quando o Brasil ainda era uma sociedade agroindustrial, também servia como credencial mínima para entrar no mercado de trabalho.
No segundo grau (atual ensino médio), somente o técnico e o normal tinham a função de preparar diretamente para o trabalho.
As demais modalidades -científico e clássico- eram organizadas em função das opções de ensino superior, sendo demandadas pelos que pretendiam ter acesso à universidade. Daí a ideia de que o ensino médio seria apenas um "curso de passagem" rumo à universidade.
Nas últimas décadas, as exigências do mercado de trabalho em relação à escolaridade cresceram muito. Na sociedade do conhecimento, o mínimo exigido é o ensino médio completo.
Por isso, é necessário um grau de abstração e habilidades intelectuais que só são desenvolvidas em pelo menos 11 anos de escolaridade. O ensino médio não representa mais só uma passagem, mas assume o papel de "ensino fundamental" para prosseguir nos estudos e acessar o mercado de trabalho.
De alguma forma, o sistema educacional tenta responder a essa nova demanda. O aumento das matrículas no ensino médio é significativo nas últimas décadas, mas sem dar vazão às reais necessidades.
Apenas a metade dos jovens de 15 a 17 anos que deveriam estar cursando esse nível é aí encontrada.
De cada dez jovens que se matriculam na primeira série, apenas cinco concluem seu curso. Em consequência, a média de escolaridade dos jovens de 18 a 24 anos ainda é de apenas nove anos (final do ensino fundamental).
O jovem que não termina seu ciclo básico está fadado a desemprego, subemprego ou inserção no mercado marginal. Ao constituírem suas novas famílias, completam o famigerado ciclo reprodutivo da pobreza. A não conclusão do ensino médio ameaça tanto o futuro dos jovens quanto o projeto de desenvolvimento sustentável do país.
Na faixa de 24 a 35 anos, apenas 38% dos trabalhadores possuem o ensino médio. Hoje, altos níveis de desemprego entre os jovens convivem com sobras de postos de trabalho. As regiões Norte, Sul e Centro-Oeste do país já vivem o temido "apagão de mão de obra".
Avançamos muito na cobertura e na qualidade de nosso ensino fundamental, mas não dá para esperar que essa "onda" atinja o médio.
Garantir que nossos jovens acessem, permaneçam e concluam o ensino médio passa a ser um desafio estratégico para a sociedade brasileira. É preciso que tenhamos consciência de que, neste estágio de desenvolvimento do país, o médio é fundamental.

WANDA ENGEL, 66, é superintendente do Instituto Unibanco. Doutora em educação pela PUC-RJ, chefiou a divisão de desenvolvimento social do Banco Interamericano de Desenvolvimento, em Washington (EUA).

FERNANDO VELOSO - Inovar e avaliar

Uma forma de estimular inovações é por meio de escolas públicas geridas por organizações privadas



NOS ARTIGOS ANTERIORES, discuti três elementos essenciais de uma estratégia eficaz para melhorar a educação no Brasil: boa gestão, políticas para escolas e alunos com pior desempenho, e professores de qualidade.
Embora existam várias experiências promissoras, os resultados das políticas educacionais dependem, de forma crucial, dos detalhes das intervenções, das características do ambiente em que atuam e da qualidade dos recursos humanos.
Neste sentido, para completar a estratégia é preciso estimular o surgimento de inovações adaptadas às circunstâncias locais e avaliar seus resultados. Caso sejam bem-sucedidas, essas iniciativas podem ser replicadas para o conjunto da rede pública.
Como são responsáveis pela educação básica, Estados e municípios têm um papel fundamental no estímulo a inovações. Uma forma, ainda pouco conhecida, é por meio da criação de escolas experimentais.
Uma experiência pioneira é a do Procentro (Programa de Desenvolvimento dos Centros de Ensino Experimental) de Pernambuco. Os Centros de Ensino Experimental foram concebidos como uma forma de introduzir inovações na rede pública em pequena escala.
Em troca de metas de desempenho, as escolas de ensino médio participantes do programa passaram a ter maior autonomia e flexibilidade em termos de remuneração e seleção de professores e de diretores.
Neste ano, a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro implantou no segundo ciclo do ensino fundamental um modelo semelhante, chamado Ginásio Experimental Carioca.
Outra forma de estimular inovações é por meio de escolas públicas geridas por organizações privadas, conhecidas nos Estados Unidos como "charter schools".
Esse modelo pode ser adotado no Brasil por intermédio de contratos de gestão entre o setor público e organizações sociais, de forma similar à que já existe na área de saúde.
O governo federal tem um papel importante no sentido de incentivar inovações e disseminar informações sobre experiências de sucesso. Um modelo que pode ser considerado nesse sentido é o do NCER (National Center for Education Research).
O NCER é um dos quatro centros que compõem o Institute of Education Sciences, órgão do Ministério da Educação dos Estados Unidos responsável pela área de pesquisa educacional.
Este centro financia a realização e a avaliação de experiências inovadoras e fornece recursos para a criação de bases de dados de desempenho escolar que possam ser utilizadas para avaliar intervenções educacionais.
A construção de um sistema que estimule a adoção e a avaliação de iniciativas inovadoras tem grande potencial para elevar a qualidade da educação no Brasil.

FERNANDO VELOSO, 44, é pesquisador do IBRE/FGV
fernando.veloso@fgv.br

segunda-feira, 27 de junho de 2011

FERNANDO VELOSO - Professores de qualidade

Combinar as informações objetivas e as subjetivas é forma eficaz de identificar os melhores profissionais



Nos artigos anteriores, argumentei que uma boa gestão e políticas específicas para escolas e alunos com pior desempenho são elementos importantes de uma estratégia eficaz para melhorar a educação no Brasil.
O terceiro componente da estratégia é formar, selecionar e reter professores de qualidade.
No Brasil, somente 62% dos professores da educação básica possuem nível superior completo com licenciatura, que representa a formação adequada para lecionar nesse nível de ensino, segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação.
Além disso, existe um descompasso significativo entre a formação do professor e a disciplina que leciona, tanto nas séries finais do ensino fundamental quanto no médio.
Um primeiro passo para reverter esse quadro é estabelecer de forma clara o conjunto de competências que professores devem adquirir para que sejam atingidas as metas de aprendizagem dos alunos, e alinhá-lo com os programas de formação inicial e continuada de docentes.
Estudos recentes, como "Subjective and Objective Evaluations of Teacher Effectiveness", de Rockoff e Speroni, mostram que a combinação de informações objetivas e subjetivas sobre o desempenho dos professores pode ser eficaz para identificar docentes de qualidade.
Um indicador objetivo, que tem sido crescentemente utilizado em outros países, é o valor adicionado do professor, medido como sua contribuição para a elevação da nota do aluno em exames padronizados.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o governo federal fornece recursos para Estados que adotam medidas de valor adicionado como um elemento de seus sistemas de avaliação de professores.
O uso dessas medidas seria um componente importante de uma política de avaliação de professores no Brasil. Para isso, é necessário criar bases de dados que associem o desempenho dos alunos ao de seus professores.
Essas medidas objetivas devem ser complementadas por avaliações subjetivas por parte de diretores e examinadores externos.
Uma vez criada uma forma de avaliar a qualidade do professor, é preciso recompensar o professor com bom desempenho.
Alguns Estados, como São Paulo, Pernambuco, Minas Gerais e, mais recentemente, Rio de Janeiro, criaram metas para cada escola pública e premiam os professores com base no grau de cumprimento dessas metas.
Em 2009, o governo de São Paulo criou um programa de progressão na carreira que depende do desempenho do professor em exames.
A avaliação dessas iniciativas será importante para que outros Estados e municípios possam escolher o modelo mais adequado.

Fernando Veloso, 44, é pesquisador do IBRE/FGV. fernando.veloso@fgv.br

segunda-feira, 9 de maio de 2011

ENSINO SUPERIOR - Sem fronteiras

As iniciativas e os obstáculos de instituições brasileiras frente à internacionalização






ÉRICA FRAGA
SABINE RIGHETTI


DE SÃO PAULO

Internacionalizar e, ao mesmo tempo, conseguir manter e formar os melhores cérebros é o grande desafio do ensino superior atual. No mercado global é assim. No Brasil não é diferente.
Aqui, essa internacionalização -medida principalmente pelo número de alunos e professores estrangeiros e pela existência de projetos acadêmicos bi ou multinacionais- tem dado seus primeiros passos alimentada pela maior agressividade das faculdades privadas.

Entre as razões para a "caça" de acadêmicos no exterior está trazer especialistas em áreas nas quais há carência no país. E, é claro, concorrer no "mercado" de alunos, que são atraídos pelo apelo de estudar com "stars".

"Um país é "player" importante quando tem universidades influentes no mundo", explica Leandro Tessler, coordenador de relações internacionais da Unicamp.

Para ele, os estudantes têm uma melhor formação se estiverem num ambiente globalizado, ou seja, em contato com ideias e práticas vindas de outros países.

Oscar Vilhena, recém empossado diretor da faculdade de direito da FGV, destaca a demanda por profissionais mais qualificados. "O advogado deve funcionar em uma outra língua e entender a cultura jurídica de outro país."

Cerca de 15% do corpo docente do Ibmec é composto por estrangeiros, segundo Vandyck Silveira, diretor-presidente do instituto. "Perseguir excelência envolve também buscar profissionais no exterior", diz.

Segundo Rinaldo Artes, diretor do Insper, representantes do instituto participam de eventos de recrutamento no exterior na busca por potenciais contratados.

Mas há também o movimento contrário, de quem quer vir para o Brasil. Para Jorge Guimarães, presidente da Capes, as universidades americanas e europeias estão inchadas. Aqui, segundo ele, um docente vindo de fora pode conseguir boa posição até em cargos de chefia.

Guimarães é um defensores da internacionalização do ensino superior. Tanto que o tema compõe um dos capítulos do próximo PNPG (Plano Nacional de Pós-Graduação), que guiará as políticas na área até 2020.
A estratégia para melhorar a qualidade acadêmica envolve atrair de volta ao país profissionais radicados no exterior. As últimas cinco contratações de professores feitas pela EPGE (FGV/ Rio) foram no exterior -dois estrangeiros e três brasileiros.

A de maior peso foi Marcelo Moreira, então professor titular da Universidade de Columbia, nos EUA. Para ele, o desejo pessoal de voltar contribuiu para aceitar o convite. Mas o fato das faculdades estarem investindo em melhorar a pesquisa também.

BUROCRACIA
Na universidade pública, disputar um professor de alto nível no mercado, oferecendo salário e condições de trabalho específicas, é inviável.

Isso, na opinião de Marco Antônio Zago, pró-reitor de pesquisa da USP, não é necessariamente um problema. "A USP não seria uma universidade melhor se contratasse um Nobel", analisa.
Mas a importância que o tema ganhou recentemente também levou a USP a criar uma vice-reitoria de relações internacionais, com foco na internacionalização.

No final da semana passada, a Unesco realizou, em Buenos Aires, encontro entre redes universitárias da América Latina e Caribe. Estavam presentes representantes de todos os países da região, reunidos em 67 instituições públicas e privadas.

O objetivo principal do evento era iniciar o debate sobre como facilitar a internacionalização do ensino superior, afim de manter no continente os cérebros de professores e alunos.
Trazer e levar estudantes e professores para além de suas fronteiras tem uma vantagem adicional: o aumento da produção científica interpaíses e de seu consequente impacto internacional.
Ou seja: quanto mais internacionalizada, mais as universidades sobem nos rankings globais. (Colaboraram LUCAS FERRAZ e MARINA MESQUITA)

segunda-feira, 21 de março de 2011

RUY CASTRO - A cola e a escola

RIO DE JANEIRO - A tentação é grande. Ao receber a incumbência de produzir um texto sobre um assunto xis, o aluno -de qualquer grau, escola ou universidade- vai ao Google, digita-o entre aspas, clica e recebe uma chuva de referências, páginas e até livros inteiros a respeito. Certo ou errado, não importa -está "tudo" ali, ao alcance dos dedos.
E copiar é ainda mais fácil. Pode-se puxar o texto para nosso arquivo sem precisar sequer digitá-lo. Sob o pretexto de fazer "pesquisa", e graças à internet, o plágio se tornou uma prática maciça entre os estudantes brasileiros. Se temos cola, para que escola?
Por sorte, os professores estão aprendendo. Primeiro, eles já não aceitam que determinado aluno, que passou o ano com a cabeça em Shakira ou Lady Gaga, possa de repente citar Cassirer ou Merleau-Ponty em seu trabalho. Para se certificar de que estão diante de um plágio, vão eles próprios ao Google, digitam entre aspas um trecho do trabalho, clicam -e o original completo, de autoria alheia, aparece gloriosamente na tela do monitor.
Outro motivo de suspeita é quando o mesmo trecho, com as mesmas palavras, aparece nos trabalhos de metade da turma, sinal de que foram à mesma fonte ou se copiaram uns aos outros.
É verdade que, no tempo da caneta-tinteiro, da pena de ganso e do mata-borrão, também existiam a preguiça, a cópia e o plágio. Mas o acesso aos livros era menor, havia menos títulos circulando e estes eram conhecidos pelos professores. Era preciso grande descaro para transcrever trechos mais longos.
Às vezes, mandam-me trabalhos escolares sobre a bossa nova, Nelson Rodrigues, Garrincha ou Carmen Miranda. Passo os olhos na esperança de encontrar alguma novidade e, de repente, deparo com páginas que me soam familiares. Vou conferir e descubro, com divertido espanto, que sou o autor delas.

terça-feira, 1 de março de 2011

Pintou mudança

Pintou mudança

Programa do MEC propõe alterações em currículo para tornar a escola mais atraente para os jovens


Alessandro Shinoda/Folhapress

Alunos do Bialik grafitam muro da escola no primeiro dia de aula

FABIANA REWALD
DE SÃO PAULO

Os dados chocam: metade dos jovens de 15 a 17 anos estão fora do ensino médio. Parte desse contingente estuda, com atraso, no ensino fundamental. Mas outra parte, a face mais preocupante dessa estatística, deixou os bancos escolares para trás.
"[Os alunos] encontram um ensino [médio] organizado em torno de um número muito grande de disciplinas, sobrecarregadas de conteúdos mais voltados para vestibulares, muitos deles sem significado para suas vidas", diz Francisco Aparecido Cordão, presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação.
O CNE discute atualmente uma atualização das diretrizes curriculares do ensino médio. Um dos programas que tem servido de base para a discussão é o Ensino Médio Inovador, criado e financiado pelo Ministério da Educação e já implementado em 357 escolas do país em 2010 -São Paulo não participa, mas estuda entrar.
O programa se baseia em quatro eixos: trabalho, ciência, tecnologia e cultura. Cada escola cria seu plano de ação pedagógica, que pode eleger um desses eixos como principal ou misturá-los, em atividades complementares, que podem acontecer até fora da sala de aula.
Para isso, a carga horária passa das 2.400 horas anuais obrigatórias para 3.000. Outros focos são leitura, artes e atividades em laboratórios, além da dedicação integral dos professores.
O governo do Rio já planeja estender o modelo para mais escolas em 2013. Hoje, 16 participam. Antonio Paiva Neto, subsecretário de Gestão da Rede e de Ensino, cita como exemplo uma escola que integrou todos os conteúdos dados em aula ao mundo do trabalho.
"O programa acaba mexendo com a prática pedagógica do professor e o aluno começa a questionar. Ele vê que é possível que aquela disciplina seja ministrada de uma outra forma", diz Letícia Ramos, coordenadora do programa em Pernambuco.

PARTICULARES
Escolas privadas usam o modelo para mexer nos currículos. É o caso do Magister (zona sul de SP), que incluiu matérias como geografia literária -"que permite um diálogo mais interessante entre a literatura e a geografia", diz o coordenador pedagógico Marcelo Feitosa.
Outra escola, o Bialik (zona oeste), decidiu virar o currículo de cabeça para baixo em suas novas turmas de ensino médio -abertas após o fim da fusão com o Renascença. Contratou 36 professores especialistas e trocou, por exemplo, a tradicional física por matérias como "Das estrelas ao átomo".
"A gente vai bater muito forte na interdisciplinaridade, fazendo monografias em que o aluno tem que abordar temas que misturam várias disciplinas", diz Alexandre Ostrowiecki, presidente da mantenedora do Bialik.

OUTRAS MUDANÇAS
Mudar a formação dos docentes é, aliás, um dos principais pontos para melhorar o ensino médio na visão de Gisele Andrade, presidente da Abaquar Consultores. "Ninguém formou para a inter e a transdisciplinaridade."
Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, aponta o problema da infraestrutura. "É preciso que a escola não se pareça com um presídio."
Segundo esses educadores, apesar de ser positivo, o Ensino Médio Inovador não é visto como abrangente o suficiente para mexer com as estruturas do ensino médio.
"Ele pega poucas escolas", diz Maria Helena Guimarães, coordenadora pedagógica da Parceiros da Educação. Ela aponta outro problema: "Quem tem de assumir o ensino médio são os Estados".
Maria Helena conta que, no ano passado, um grupo de organizações não governamentais elaborou um documento com propostas transformadoras. Entre elas, estão a redução de matérias obrigatórias e o preenchimento de ao menos 40% do currículo com disciplinas eletivas.


ANÁLISE

Um novo ensino médio para romper as desigualdades

MOZART NEVES RAMOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

A desigualdade e sua face educacional são fatos, infelizmente, tolerados no Brasil. No ensino médio, ela toma proporções acentuadas, como pode ser observado pela análise de resultados de avaliações de desempenho dos estudantes.
De acordo com o relatório "De Olho nas Metas", do movimento Todos Pela Educação, apenas metade dos jovens de 19 anos têm o ensino médio concluído.
Deles, somente 11% conseguiram aprender o conteúdo mínimo em matemática, e 29%, em português.
Por ser a etapa final da educação básica, o ensino médio carrega as carências e as ineficiências das etapas anteriores.
Falhas na alfabetização, no acesso à escola, no aprendizado durante o ensino fundamental e na conclusão das séries têm impactos preocupantes sobre as estatísticas. Sem enfrentar essas questões não é possível esperar que os brasileiros tenham acesso a educação de qualidade.
Além disso, o ensino médio sofre com um excesso de disciplinas e há pouca clareza sobre o que o país espera dos alunos nesse nível. Existem algumas iniciativas para dar outro rumo à etapa final da educação básica, como o Ensino Médio Inovador.
Proposto pelo MEC (Ministério da Educação), em consonância com o CNE (Conselho Nacional de Educação), ele pretende proporcionar ao estudante uma melhor articulação entre os diferentes saberes, alinhar a teoria à prática e promover atividades que estimulem o espírito empreendedor dos jovens.
É uma tentativa de instigar os alunos a desenvolver gosto pelos estudos e, ao mesmo tempo, de serem respeitados em sua diversidade cultural.
Nesse cenário, a escola deve prepará-los para a vida e para que possam romper com as desigualdades sociais, por meio de oportunidades educacionais, culturais e profissionais.
O ensino médio demanda nova organização das disciplinas e dos conteúdos e requer que eles estejam articulados com o trabalho, a ciência, a tecnologia e a cultura. Só assim a educação poderá cumprir o papel de ser uma política compensatória para as disparidades do Brasil.

MOZART NEVES RAMOS é conselheiro do Todos Pela Educação e membro do Conselho Nacional de Educação.

O drama da avaliação - ARNALDO NISKIER

O Ministério da Educação não tem estrutura adequada para efetivar uma fiscalização competente, que abranja as 27 unidades da Federação



Durante séculos, deixamos de considerar a avaliação como um fenômeno necessário na educação brasileira. De 20 anos para cá, no entanto, como pudemos verificar durante o tempo em que estivemos no Conselho de Educação, passamos a dar relevo à matéria, a começar pelo ensino superior.
Temos lembrança de um denso trabalho feito pelo então conselheiro Ib Gatto Falcão, sob o título "Avaliação continuada do ensino superior brasileiro", aprovado por unanimidade pela Câmara de Ensino Superior e pelo plenário do órgão normativo, que acabou depois dormindo nas gavetas do Ministério da Educação, como era hábito.
O assunto voltou com força, sobretudo nos últimos anos, na gestão do ministro Haddad, com a generalização dos procedimentos em todos os níveis de ensino.
Nesse assunto, o que tem acontecido é uma série de falhas (não é falta de sorte) na condução dos vários exames, com destaque para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que envolve mais de 3 milhões de jovens de ensino médio, o Enade (para o ensino superior) e o ProUni, hoje com mais de 1 milhão de inscrições no país inteiro.
Erros conceituais, além de um precário sistema de utilização dos recursos da informática.
Tudo isso tem gerado uma grande insatisfação por parte de usuários do sistema, alunos e professores, colocando em risco a sua necessária continuidade.
Entidades com a credibilidade de sindicatos patronais, como as confederações nacionais, vêm se debruçando sobre esses problemas -e disso resultou uma série de sugestões ao governo, de que daremos exemplos a seguir, para permitir o seu aperfeiçoamento.
Antes, convém frisar que o tema foi exaustivamente debatido em reuniões coordenadas pelo ex-ministro Ernane Galvêas, com sua imensa experiência de homem público. Está mesmo a merecer os reparos indicados: 1. O Ministério da Educação, num país de 190 milhões de habitantes, não tem estrutura adequada para efetivar uma fiscalização competente, que abranja as 27 unidades da Federação e um universo de quase 60 milhões de estudantes;
2. As provas do Enem demonstram que não há infraestrutura que isente o processo de erros lamentáveis e que não existe a conveniente inteligência tecnológica e logística;
3. Os exames devem ter menor periodicidade, e não serem feitos de forma anual;
4. A aventada ideia da criação da "Concursobras" é profundamente negativa, pois ativa a burocratização sem a garantia de resultados compatíveis com as nossas esperanças, além de envolver custos desnecessários;
5. Se a execução deve ser descentralizada, a elaboração das provas poderia ficar sob responsabilidade do Ministério da Educação;
6. Poder-se-ia acreditar uma universidade pública em cada unidade federativa como polo para aplicação das provas, como ocorre nos Estados Unidos da América. Dessa maneira se garantiria a necessária descentralização.

ARNALDO NISKIER, doutor em educação, é membro da Academia Brasileira de Letras e presidente do Ciee (Centro de Integração Empresa-Escola)/Rio de Janeiro.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Educação superior, banda larga de acesso

Artigo do ministro da Educação, Fernando Haddad, publicado na Folha de S. Paulo desta quarta-feira (23)

As recentes conquistas não podem nos fazer esquecer dos avanços da educação superior, essenciais para a manutenção do ciclo virtuoso que vivemos

Na última década, o Brasil foi, segundo o Banco Mundial, o país que mais avançou em aumento de escolaridade e, segundo dados da OCDE, o terceiro país que mais evoluiu em qualidade da educação básica.

Superamos a China, no primeiro caso, e ficamos atrás apenas de Chile e Luxemburgo, no segundo. Fruto de investimentos recordes em educação básica, essas conquistas não podem nos fazer esquecer dos avanços da educação superior, essenciais para a manutenção e desenvolvimento desse ciclo virtuoso.

1. Reuni: a expansão e interiorização das universidades federais dobraram o número de ingressantes entre 2003 e 2010, levando educação superior pública de qualidade para 126 cidades do interior do país.

O artigo da Constituição de 1988 (suprimido em 1996) que determinava a interiorização da oferta foi recuperado em sua essência, bem como a estratégia de transformar a educação superior num dos eixos de reordenação do território.

2.Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs): foram criados 38 IFs a partir de 140 unidades federais de educação profissional preexistentes (1909-2002) e a entrega de 214 novas (2003-2010), com projeto pedagógico inovador, que alia a oferta de ensino médio integrado a educação profissional, licenciaturas nas áreas de matemática e ciências da natureza e cursos superiores de tecnologia, firmando para estes padrão nacional de excelência acadêmica.

3.Universidade Aberta do Brasil: foram instalados 587 polos de apoio presencial para ensino à distância público de qualidade, sobretudo em cidades que não comportam um campus universitário, criando padrão de excelência nessa outra fronteira de expansão, com foco na formação de professores.

4.ProUni: foi regulamentado o artigo da Constituição que previa isenção fiscal para entidades que atuavam na educação superior, possibilitando o ingresso em cursos superiores pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de mais de 800 mil jovens da escola pública.

5. Novo Fies: as regras de financiamento estudantil foram radicalmente alteradas, com redução dos juros, aumento do prazo de carência e amortização, dispensa de fiador e perdão da dívida para professores da escola pública e médicos do SUS à razão de 1% por mês de exercício profissional.

6. Sinaes (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior): a expansão da educação superior se dá agora pela observância de rígidos critérios de qualidade. As instituições ganham ou perdem autonomia de acordo com indicadores objetivos do Sinaes, podendo inclusive ser descredenciadas ou mesmo ter seus processos seletivos suspensos.

7.Novo Enem: a reformulação do exame segue seu caminho, possibilitando que instituições de ensino superior substituam seu anacrônico vestibular por um instrumento contemporâneo semelhante ao utilizado pelos mais modernos sistemas de ensino do mundo.

Dentre outras possibilidades, o novo Enem permite que, com seu boletim, o estudante possa, conhecendo previamente seu desempenho e a média do desempenho dos demais, escolher o curso e a instituição em que pretende estudar.

Todos esses projetos, pela escala monumental, enfrentam algumas dificuldades. Mas o resultado é que, em dez anos, a matrícula no ensino superior teve aumento de 151% e o número de formandos cresceu 195%! Com o aperfeiçoamento desses instrumentos, podemos criar na próxima década uma verdadeira banda larga de acesso à educação superior.

Fernando Haddad, 48, advogado, mestre em economia, doutor em filosofia, é ministro da Educação.

(Folha de São Paulo)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

GILBERTO DIMENSTEIN - Professores digitais

O que mudará é que o professor que despeja conteúdos automaticamente será mesmo dispensável



QUANDO ENCONTRA dificuldade para ajudar o filho na lição de casa, Bill Gates aciona o professor Salman Khan. "Tudo fica fácil", diz Gates, que, nos últimos anos, vem gastando dezenas de milhões de dólares em sua fundação para descobrir novos jeitos de educar.
Filho de família da Índia e de Bangladesh, Khan tem um currículo capaz de impressionar qualquer gênio: no MIT (Instituto Tecnológico de Massachusetts), fez matemática, engenharia elétrica e ciência da computação; em Harvard, administração. Mas o que impressiona mesmo Gates é o valor das aulas: são de graça e acessíveis a qualquer um -aliás, neste momento, se quiser, você também pode entrar na internet e receber as mesmas aulas.
Khan foi um dos personagens que influenciaram Gates a escrever um texto em que sugere a substituição dos professores convencionais por aulas, acompanhadas de exercícios, gravadas com recursos multimeios por professores como Khan e distribuídas para todos. "É melhor uma boa aula desse tipo do que as dadas por professores medíocres", provoca o criador da Microsoft.



Muita gente está levando a sério a possibilidade de as novas tecnologias exterminarem o professor como o conhecemos. Haveria uma radicalização do ensino a distância. Já há recursos para que um curso seja dado sem interferência humana. As aulas são gravadas e todos os debates, exercícios e notas são feitos por um programa de computador.
Autor da ideia de um computador por criança, Nicholas Negroponte me disse que está preparando uma experiência para ser lançada em comunidades da África e da Ásia que têm alto índice de analfabetismo. Quer deixar num lugar público computadores conectados à internet para ver como e se as crianças conseguem aprender a ler e a escrever sozinhas. "Cada vez mais o conhecimento vai ser transmitido fora da sala de aula", comentou.



Esse tipo de recurso pode ajudar muito os alunos, especialmente os mais pobres, mas duvido que possa atingir a excelência sem que se viva num ambiente criativo, estimulante, com trocas entre alunos e professores motivados. Qualquer um pode acessar aulas do MIT ou de Harvard, entre outros grandes centros de ensino. Outra coisa é entrar num laboratório e acompanhar, por exemplo, o nascimento de um carro capaz de estacionar sozinho. Esse projeto é desenvolvido no AgeLab, que se dedica a criar produtos e serviços para idosos. Já está criando roupas e acessórios para os mais velhos evitarem acidentes.
Estou aqui em Harvard experimentando uma poderosa combinação do virtual com o presencial, num curso sobre experiências educativas internacionais. Cada aula se transforma num fórum na internet entre os estudantes, conduzido por três monitores. Daí surgem outros fóruns autônomos para cada comentário. Para aprofundar as questões, a classe, separada em três grupos, reúne-se presencialmente.
O professor mistura as aulas expositivas com depoimentos de convidados do mundo inteiro, que, a distância, ilustram os textos curriculares. Um explica como usa a tecnologia para melhorar o ensino em áreas rurais da Índia, outro conta como cria bibliotecas em remotas vilas da Ásia ou da África. Depois da exposição, os convidados respondem às questões dos estudantes. Tudo é gravado e postado na rede.
Tecnologia alguma, porém, supera o entusiasmo de um professor como Fernando Reimers. Ele viaja pelo mundo para conhecer experiências educacionais e participa de algumas delas. Não há software capaz de competir com essa paixão.



O que veio para ficar foi o fato de as informações circularem, criando a possibilidade de que o mundo se converta numa imensa comunidade de aprendizagem. Existem sinais por todos os lados.
Um dos negócios que prosperam no mundo digital são páginas abertas a perguntas que são respondidas por leitores. A diferença agora é que empresas estão contratando especialistas para dar respostas quase imediatamente. Há redes sociais em que se podem aprender todas as línguas importantes. Em outras páginas, são ensinadas expressões e gírias que acabam de surgir. Aprende-se espanhol com alguém que está na Argentina ou na China.



O que vai mudar é que o professor que despeja automaticamente os conteúdos será mesmo dispensável, pois será mais caro e menos eficiente do que uma tela de computador.


PS- Coloquei no www.catracalivre.com.br os links desta coluna: o AgeLab, o MIT, o ensino de línguas, as aulas do professor Khan, as redes sociais para o aprendizado dos idiomas e os cursos gratuitos de universidades.

gdimen@uol.com.br

MARCELO GLEISER - Defendendo a ciência

Outros países educam seus jovens sobre a importância da ciência; no Brasil, há uma corrente contrária

PARECE NOTÍCIA VELHA, mas a ciência e o ensino da ciência continuam sob ataque. Por exemplo, uma busca na internet com as palavras "criacionismo", "escolas" e "Brasil" leva ao portal www.brasilescola.com. Lá, há um texto, de Rainer Sousa, da Equipe Brasil Escola, que discute a origem do homem.
O autor afirma que o assunto é "um amplo debate, no qual filosofia, religião e ciência entram em cena para construir diferentes concepções sobre a existência da vida".
No final, diz: "sendo um tema polêmico e inacabado, a origem do homem ainda será uma questão capaz de se desdobrar em outros debates. Cabe a cada um adotar, por critérios pessoais, a corrente explicativa que lhe parece plausível".
"Critérios pessoais" para decidir sobre a origem do homem? A religião como "corrente explicativa" sobre um tema científico, amplamente discutido e comprovado, dos fósseis à análise genética?
Como é possível essa afirmação de um educador, em pleno século 21, num portal que leva o nome do nosso país e se dedica ao ensino?
Existem inúmeros exemplos da tentativa, às vezes vitoriosa, da infiltração de noções criacionistas no currículo escolar. Claro, se o criacionismo fosse estudado como fenômeno cultural, não haveria qualquer problema. Mas alçá-lo ao nível de teoria científica deturpa o sentido do que é ciência e de seu ensino.
Um país que não sabe o que é ciência está condenado a retornar ao obscurantismo medieval. Enquanto outros países estão trabalhando para educar seus jovens sobre a importância da ciência, aqui vemos uma corrente contrária, que parece não perceber que a ciência e as suas aplicações tecnológicas determinam, em grande parte, o sucesso de uma nação.
Muitos dirão que são contra a ciência apenas quando ela vai de encontro à fé. Tomam antibióticos, mas rejeitam a teoria da evolução.
Se soubessem que o uso de antibióticos, que aumenta as chances de que os germes criem imunidade por mutações genéticas, é uma ilustração concreta da teoria da evolução, talvez mudassem de ideia. Ou não. Nem o melhor professor pode ensinar quem não quer aprender.
Os cientistas precisam se engajar mais e em maior número na causa da educação do público em geral.
Mas devemos ter cuidado em como apresentar a ciência, sem fazê-la dona da verdade. Devemos celebrar os seus feitos, mas ser francos sobre suas limitações e desafios (a teoria da evolução não é um deles!) Não devemos usar a ciência como arma contra a religião, pois estaríamos transformando-a numa religião também. Achados científicos são postos em dúvida e teorias "aceitas" são suplantadas.
Bem melhor é explicar que a ciência cria conhecimento por meio de um processo de tentativa e erro, baseado na verificação constante por grupos distintos que realizam experimentos para comprovar ou não as várias hipóteses propostas.
Teorias surgem quando as existentes não explicam novas descobertas. Existe drama e beleza nessa empreitada, na luta para compreender o mundo em que vivemos. Ignorar o que já sabemos é denegrir a história da civilização. O problema não é não saber. O problema é não querer saber. É aí que ignorância vira tragédia.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Cenário de crise no ensino de graduação, artigo de Wanderley Messias da Costa

"É imprescindível mudar os meios e métodos de tradicionais de produzir e difundir conhecimento"

Wanderley Messias da Costa é professor titular do departamento de geografia da USP e um dos idealizadores do centro de biotecnologia da Amazônia. Artigo publicado em "O Estado de SP":

O país tem hoje pouco mais de 5 milhões de estudantes de graduação, com 75% deles em instituições privadas e 25% nas públicas. Desde o início dos anos 1990 quase triplicamos a oferta de vagas e 25% dos jovens de 18 a 24 anos estão no ensino superior. A par do bem-sucedido esforço nos últimos dez anos para a expansão de vagas nas universidades federais e estaduais, o aumento da demanda nessa área tem sido atendido pelo setor privado, cujo forte ritmo de crescimento só agora dá sinais de esgotamento.

Essa é mais uma das nossas características de país emergente neste mundo globalizado e competitivo, em que governos têm optado pela abertura desse tradicional reduto do poder público ao setor privado como estratégia para atender com rapidez à crescente procura por ensino de terceiro grau.

Num aspecto, entretanto, expomos inusitada singularidade que nos qualifica como interessante case internacional para análise dos especialistas no tema. Por aqui essa expansão foi tão atabalhoada que em 2008 havia 1,5 milhão de vagas ociosas no ensino superior nacional, a quase totalidade delas em instituições privadas. Dispomos de poucos estudos sobre as causas dessa anomalia, mas há sinais a observar, a exemplo da acentuada e recente queda no número de egressos do ensino médio, que reduz a massa de clientes nesse alargado mercado - e sabemos que essa é tendência que não será revertida no curto prazo.

Além disso, é preciso considerar a evasão escolar universitária, terrível mazela nacional que assola tanto instituições e cursos medíocres quanto os de reconhecida excelência (taxa média acima de 40%), combinada à escandalosa duração dos cursos nas universidades públicas, prevista em geral para quatro anos, mas que em sua maioria chega a seis ou mais.

Para o âmbito específico das escolas privadas, devem-se acrescentar a frustração com a baixa (e em muitos casos baixíssima) qualidade do ensino oferecido e a impossibilidade para milhões de jovens de baixa renda de arcar com os altos custos das mensalidades. É por isso que as 500 mil bolsas de estudos concedidas pelo governo federal (ProUni) em 2009 e 2010 podem ser avaliadas pelo seu duplo papel, pois, além do inegável mérito enquanto política de inclusão social para estudantes carentes, elas funcionaram como alívio momentâneo para as dificuldades atuais do setor.

Esse diagnóstico geral, entretanto, não desvenda o núcleo duro da crise atual do ensino de graduação, que, diga-se de passagem, atinge em graus variados todos os países do mundo. Governos, universidades, empresas e amplos setores da sociedade estão engajados de algum modo em programas de reforma dos seus sistemas de educação e particularmente do ensino superior. O ponto de partida que nos põe na mesma frente de batalha é a convicção comum de que na era atual de acelerada transição econômica, cultural e tecnológica, que a todos impacta, é imprescindível que mudemos radicalmente os meios e métodos tradicionais que até aqui temos utilizado para produzir e difundir ciência e conhecimento em geral e, mais que isso, para ensinar e formar nossas crianças e nossos jovens.

O primeiro passo é reconhecermos que há uma brutal queda de qualidade no ensino superior que atinge a todos, indistintamente. Como comprovar isso? Não é difícil. Além da lastimável e imensa quantidade de jovens que, de livre iniciativa ou abatidos por dificuldades várias, desistem no início ou no meio do caminho, há outros sintomas visíveis dessa crise. São incontáveis os que se formam e não conseguem emprego, ou que trabalham sem exercer as suas profissões, ou os que, tendo obtido seus diplomas, descobrem que estes em nada contribuirão para sua ascensão profissional, ou, ainda, os que, mal tendo concluído sua graduação, correm à procura de cursos de especialização ou de pós-graduação no país ou no exterior como meio de superar as deficiências da sua formação.

Podemos também observar o que nos têm indicado as poucas, mas muito relevantes, avaliações de qualidade disponíveis, a exemplo dos exames anuais aplicados aos recém-formados dos cursos de Medicina e Direito, respectivamente pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Os resultados finais são alarmantes. Eles apontam que foram aprovados 16% dos médicos e 12% dos advogados inscritos nesses exames. As últimas avaliações do Ministério da Educação (MEC) abrangendo cursos e instituições de ensino superior do país - que incluem o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) - revelam que, com poucas exceções, os piores desempenhos são os das universidades e faculdades privadas. Na maioria desses estabelecimentos de ensino persiste uma conjunção de fatores conhecidos que bloqueia o seu desempenho: baixa qualificação do corpo docente; precariedade do acervo bibliográfico, das instalações prediais, dos equipamentos e laboratórios; salas com elevado número de alunos, currículos obsoletos, excesso de aulas expositivas e sistemas deficientes de avaliação.

Ressalte-se, entretanto, que alguns dos ingredientes desse cenário de crise estão presentes em todo o sistema e podem ser encontrados até mesmo nas universidades de ponta do país. Como sabemos, estas se beneficiam da elevada qualificação acadêmica do corpo docente, combinada à excelência em pesquisa e pós-graduação, e por isso a presunção de muitos é que esse ambiente naturalmente assegurará a qualidade dos seus cursos de graduação. Infelizmente, porém, não é isso o que temos constatado e mudanças nesse terreno não ocorrem por capilaridade ou osmose, mas a partir da intervenção conjunta e em profundidade dos governos, dos dirigentes e do corpo docente.

(O Estado de SP, 30/12)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Lula terceiriza meta de laptop em escola

Estados e municípios fornecerão aparelhos por meio de crédito do BNDES que corresponde a 25% do objetivo original

A meta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de garantir a todos os alunos da rede pública um computador no valor de US$ 100 não será cumprida e o que restou dela acabou "terceirizada" para os governos estaduais e prefeituras por um valor bem superior ao previsto.

Na segunda-feira (27/12), o governo anunciou a criação de uma linha de crédito concedida a Estados e municípios pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) com limite de compra correspondente a 25% do total de alunos da rede pública. Ou seja, apenas um quarto da meta original.

Em 2006, Lula assumiu o compromisso quanto ao projeto do UCA (Um Computador por Aluno) após ouvir de Nicholas Negroponte, professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA), a proposta do laptop educacional de baixo custo.

Na época, fabricantes já afirmavam que o preço de US$ 100 era impossível de ser atingido nas condições pedidas pelo governo, como a garantia de três anos.

Dois anos depois, Lula acabou desistindo do projeto por considerar que ficaria caro demais instalar laboratórios de informática nas 55 mil escolas públicas do país.

Em 2008, o programa funcionou de forma experimental em Piraí (RJ) e em quatro capitais -São Paulo, Porto Alegre, Brasília e Palmas.

Pela linha do BNDES, cada laptop custará R$ 344,18 (cerca de US$ 200) no Centro-Oeste, Norte e Sudeste -o valor engloba custos de entrega, garantia e instalação. Para Sul e Nordeste, será mais caro: R$ 376,94 (US$ 220).

Segundo as especificações do MEC (Ministério da Educação), o equipamento tem 4 gigabytes de armazenamento, 512 megabytes de memória, tela de cristal líquido de 7 polegadas e bateria com autonomia mínima de 3 horas.

(Simone Iglesias e Larissa Guimarães)

(Folha de SP, 28/12)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

SP tem nota de leitura pouco acima da média do país

Os alunos de São Paulo tiveram médias no Pisa pouco acima das do país. No Brasil, variaram da quinta à oitava posição, respectivamente em leitura e matemática.

Brasil fica em 53º lugar em prova de leitura

Se fosse um país, o Estado estaria em 49º em leitura, três posições acima da do Brasil, com desempenho semelhante ao de Romênia, Tailândia e México. No total, 65 países foram avaliados.

"O desempenho de São Paulo foi bom. Se não é o primeiro, é preciso considerar que é um dos Estados com maior diversidade populacional, o que impacta o resultado", afirmou à Folha o secretário da Educação de São Paulo, Paulo Renato Souza.

"Quanto mais homogênea a rede, melhor a nota", disse.

O relatório do Pisa diz que, como o Acre, São Paulo fez uma "transformação" no ensino, ao criar seu próprio sistema de monitoramento de qualidade (Idesp) e fazer um currículo para cada série.

Superintendente-executiva do Instituto Unibanco, Wanda Engel diz que o resultado paulista não é satisfatório. "Se eu fosse a nova governadora de SP ou RJ, assumiria constrangida. Os dois Estados estão muito atrás no Sudeste. Minas disparou."

O Distrito Federal lidera os três rankings no país (leitura, ciências e matemática). Alagoas é o pior em duas listas, e o Maranhão, em uma.

EXCELÊNCIA

Os dados detalhados mostram que há ilhas de excelência no Brasil. A rede com melhor nota foi a federal, cujo resultado em leitura é similar ao da média de Hong Kong, quarto melhor participante do mundo. As escolas privadas se assemelham ao índice da Austrália (nono lugar).

Por outro lado, a rede pública não federal ficaria empatada com a Argentina, na 58ª posição, cinco posições abaixo da brasileira.