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sábado, 10 de dezembro de 2011

Quanto mais, menos

Artigo de Luiz Roberto Liza Curi publicado na Folha de São Paulo de hoje (9).

A expansão do ensino superior no Brasil saltou de 1,945 milhão de matrículas em 1998 para 6.379.299 em 2010. Desse volume de matrículas, 4.736.001, perto de 75%, pertencem às instituições privadas. A pós-graduação cresceu mais de 150% em menos de dez anos. São 173 mil matrículas, sendo 144.911 (95%) em instituições públicas. Titula 50 mil mestres e doutores por ano, com um padrão de qualidade internacional.

Mas se o aumento dos pesquisadores no Brasil é comemorado como um bem nacional, o do número de graduados nem tanto. Essa expansão, sancionada por um complexo e consistente sistema de avaliação, é um significante com diversos significados.

De um lado, é apontada com certa desconfiança por parcelas da opinião pública. Algumas organizações profissionais associam explicitamente a expansão do ensino superior com a má formação. De outro lado, ela é vista como um termômetro de mobilização de investimentos financeiros pelas chamadas redes de instituições.

De nenhum lado, no entanto, a expansão, especialmente do setor privado, foi vista ou analisada como fator essencial ao desenvolvimento e à sustentação da nação. Será justo admitir que essa expansão seja um problema capaz de gerar uma lacuna no País?

No Brasil, a universalidade do acesso ao ensino superior é, de fato, um problema. Temos menos de 16% da população de 18 a 24 anos matriculada em cursos superiores. Perdemos do Paraguai (18%) e da Argentina (48%), passamos longe de Portugal (50%) e não conseguimos divisar a Coreia (78%).

Configura-se, assim, uma situação aparentemente injusta. Um índice de cobertura da população tão baixo em um setor tão criticado pelo ritmo de sua expansão! Devemos esperar uma qualidade cada vez mais suspeita na medida em que as matriculas crescem?

É preciso reconhecer que não. É louvável o acesso dos cidadãos de baixa renda e a ampla inclusão da chamada nova classe média ao ensino superior. O problema da entrada vai se resolvendo. Falta, ainda, resolver o da saída.

O êxito de universidades, centros universitários e faculdades deve, principalmente, ser expressão da qualidade de seus concluintes, e não do número de ingressantes. O excelente trabalho que o Ministério da Educação desenvolve na avaliação do ensino superior, que por si faz muito pelo País, deve incentivar a transformação de currículos e conteúdos na direção dos desafios sociais e tecnológicos contemporâneos.

Seria bem-vinda uma ampla interação entre a avaliação e outras políticas públicas que estimulassem as instituições de ensino superior a formar profissionais em áreas estratégicas e prioritárias ao desenvolvimento do país. Sem essa articulação a avaliação vai se transformando num instrumento do Estado destinado a proteger a sociedade de uma expansão tida como suspeita. A dimensão do sistema de ensino superior brasileiro não pode, na direção e na velocidade econômica que o país necessita, representar, apenas, milhões de matriculas.

Luiz Roberto Liza Curi, sociólogo, é diretor nacional de educação superior e pesquisa do SEB SA. Foi diretor de políticas de educação superior do Ministério da Educação.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Inovar para competir

Artigo de Roberto Rodrigues na Folha de São Paulo de sábado (22).

Tenho insistido muito neste espaço em valorizar a tecnologia como principal fator responsável pelo extraordinário salto da produtividade e da competitividade sustentável da agropecuária brasileira. E é mundialmente reconhecido o papel da Embrapa nesse processo. De fato, essa notável instituição ainda é muito jovem - nem completou 40 anos - para os avanços obtidos - a conquista do cerrado se insere no rol dos mais relevantes. Com efeito, até a década de 1970 os produtores rurais diziam: "Cerrado, só dado ou herdado!".

Eles sabiam como era fraca a terra de lá e, muito antes da Embrapa, o Instituto Agronômico de Campinas, a Esalq de Piracicaba e instituições de pesquisa paulistas e de outros estados vinham estudando formas de domar aquela natureza hostil à agricultura. Mas, vitimada pelo célebre erro de Pero Vaz de Caminha ("Nesta terra, em se plantando tudo dá"), a sociedade em geral acha que a maior moleza no Brasil é ser agricultor. Não é. Nunca foi.

É verdade que as chamadas terras roxas de Ribeirão Preto, de Jaú e do norte do Paraná ou o massapé de Campinas e de Piracicaba vinham sendo cultivados com grande êxito graças aos trabalhos de pesquisa e extensão rural de órgãos públicos paulistas.

Mas o solo do cerrado, essa imensa área que representa a nossa maior fronteira agrícola, é o tal latossolo, com coloração que vai do vermelho ao amarelo, profundo, bem drenado, muito pobre em nutrientes essenciais (cálcio, magnésio, potássio) e matéria orgânica, tem grande acidez e toxidez por alumínio, de modo que, sem tecnologia adequada e corretivos e fertilizantes, não produz nada! Bem diferente, por exemplo, do pampa argentino, planícies férteis conhecidas como os melhores solos do mundo, que precisam de menos da metade dos adubos de que precisamos.

Por outro lado, grande parte do nosso cerrado, da metade do Centro-Oeste para cima, tem um clima chamado de tropical sazonal, que se caracteriza por um limitado período de chuvas durante o verão e um inverno sequíssimo, que não permite duas culturas anuais.

Pois foram essas dificuldades naturais aparentemente insuperáveis que nossos cientistas venceram, trazendo para cá tecnologias desenvolvidas em países do hemisfério Norte e tropicalizando-as, seja com variedades adaptadas à nossa edafoclimatologia, seja com tratos culturais modificados, seja com fertilização diferente e até com a irrigação apropriada. Os solos drenados do cerrado não retêm a umidade, de modo que secam rapidamente. E sua acidez inibe qualquer cultivo.

Tudo isso foi enfrentado e dominado pela tecnologia. Cada pesquisador do nosso agro merece uma medalha! Hoje, competimos com produtores do mundo todo, e, mesmo com o pesado custo Brasil, avançamos no mercado internacional. Só em relação às exportações, saímos de US$ 21 bilhões em 2000 para mais de US$ 74 bilhões no ano passado. E com um saldo muito maior que o saldo do País todo, salvando com isso até nossas reservas em dólares.

E novas tecnologias vêm chegando: a integração lavoura-pecuária, verdadeira revolução tropical, por exemplo, permite em toda região de inverno seco duas culturas anuais: grãos e carnes. Um verdadeiro ovo de Colombo.

A biotecnologia, a nanotecnologia, as novas máquinas agrícolas que reduzem perdas, os defensivos com moléculas muito menos agressivas, as sementes mais resistentes e rústicas, a irrigação, as biorrefinarias e um sem-número de outros temas que nos colocam na vanguarda do conhecimento científico no agro são garantia de contínua competitividade com sustentabilidade, mesmo se confirmarem as previsões mais pessimistas quanto ao aquecimento global: a gente se adaptará!

Por isso, é absolutamente fundamental oferecer aos nossos institutos de pesquisa - IAC, IB, IZ, Pesca, Universidades, Embrapa - e de extensão - a Cati - os recursos indispensáveis para continuarem servindo ao País.

Roberto Rodrigues é coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do Departamento de Economia Rural da Unesp - Jaboticabal, foi ministro da Agricultura (governo Lula).