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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Mulheres são maioria entre jovens fora da escola e do mercado de trabalho

Estudo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) mostra que mulheres são afetadas muitas vezes em função da maternidade e do casamento

Parte da população de 18 a 24 anos do país faz parte de um grupo que nem estuda nem trabalha. São cerca de 3,4 milhões de jovens que representam 15% dessa faixa etária. Um estudo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) mostra que as mulheres são mais afetadas por esse problema, muitas vezes em função da maternidade e do casamento.

Do total de jovens fora da escola e do mercado de trabalho, 1,2 milhão concluiu o ensino médio, mas não seguiu para o ensino superior e não está empregado. A proporção de jovens nessa situação aumentou de 2001 a 2008, segundo o Inep, e quase 75% são mulheres. Uma em cada quatro jovens nessa situação tinha filhos e quase metade delas (43,5%) era casada em 2008.

Para Roberto Gonzales, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o estudo reflete que a desigualdade de gênero ainda persiste não apenas na diferença salarial, mas no próprio acesso ao mercado de trabalho. "Isso tem muito a ver com a divisão do trabalho familiar, seja doméstico ou de cuidados com o filho. É uma distribuição muito desigual e atinge em especial as mulheres, por isso você tem tantas meninas fora do mercado e da escola", diz.

Entre as mulheres de 18 a 24 anos que estão na escola e/ou no mercado de trabalho, o percentual daquelas que têm filhos é cinco vezes menor. Segundo o estudo, os dados comprovam que "existe forte correlação entre casamento/ maternidade e a saída, mesmo temporária, da escola e do mercado de trabalho observada para as mulheres".

Uma vez que o processo de escolarização foi quebrado, o retorno aos estudos é bem mais difícil. Para Gonzales, esse afastamento do jovem do mercado de trabalho ou dos estudos pode não ser apenas uma situação "temporária", como sugere o estudo. Um dos fatos que corroboram essa teoria é a queda da matrícula entre 2009 e 2010 nas turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), segundo dados do último censo escolar.

"A baixa escolaridade não é uma barreira absoluta ao mercado de trabalho, mas é um problema porque há a possibilidade de criar-se um círculo vicioso. A mulher não terá acesso a bons empregos que dariam experiência profissional e poderiam melhorar sua inserção no futuro", alerta.

Gonzales afirma ainda que as políticas públicas precisam ser mais flexíveis e acompanhar os "novos arranjos" da sociedade para garantir mais apoio a esse grupo de jovens mães. "As pessoas costumam ter uma ideia mais tradicional de educação em que os pais provêm o sustento para que o filho termine a escolaridade, depois ele segue para o ensino superior e entra no mercado de trabalho. E, na realidade, esses eventos não acontecem necessariamente nessa ordem. Assim como temos muitos jovens casais, também temos famílias monoparentais chefiadas por mulheres com filho e isso, muitas vezes, abre espaço para outras trajetórias de vida", explica.

Uma das estratégias básicas para garantir que a jovem consiga prosseguir com seus estudos ou ingressar no mercado é a ampliação da oferta em creche. Atualmente, menos de 20% das crianças até 3 anos têm acesso a esse serviço no país. "Essa é uma das principais barreiras alegadas pelas mulheres inativas", indica Gonzalez.

(Amanda Cieglinski)

(Agência Brasil, 2/2)

Há um baixo dinamismo na universidade brasileira, artigo de José Nelson Onuchic

"A universidade brasileira é complicada: tempo integral, dedicação exclusiva e a burocracia, por exemplo, para importar material científico"

José Nelson Onuchic é professor de física na Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), nos EUA. Artigo publicado na "Folha de SP":

É difícil uma pessoa voltar ao Brasil depois de ter estabelecido uma carreira no exterior por vários aspectos.

O primeiro é financeiro. No Brasil, os salários acadêmicos são iguais, diferentemente do que acontece no exterior. Eu não ganho o mesmo salário que os demais professores. Um membro de uma associação científica, por exemplo, ganha muito mais do que seus colegas da faculdade. Há competitividade.

Hoje existe um dinamismo baixíssimo nas universidades brasileiras. Não se vê profissionais mudando de instituições, sendo que isso poderia ser bom para as próprias instituições. Por causa do mecanismo de concurso, a pessoa entra na instituição e fica lá a vida inteira. Na Europa e nos EUA as pessoas têm em média três ou quatro empregos ao longo da vida.

Outra coisa: o que pode levar uma pessoa a largar o que está fazendo no exterior e voltar ao Brasil? A Espanha repatriou muita gente há 15 anos. Eles criaram um centro de pesquisas especiais, fazendo com que o pessoal que voltou não fosse vinculado às regras das universidades. Mas eles poderiam fazer pesquisas equivalentes às que estavam fazendo no exterior.

Os EUA dão muito mais liberdade para se fazer pesquisa. No Brasil, você tem de ficar na "fila" para conseguir financiamento ou para ter uma linha de pesquisa.

Além disso, eu estava interessado em fazer ciência interdisciplinar, e os departamentos no Brasil ainda eram muito convencionais.

A universidade brasileira é complicada: tempo integral, dedicação exclusiva e a burocracia, por exemplo, para importar material científico.

Depois de 21 anos nos EUA, eu não penso em voltar ao Brasil. Voltaria por períodos curtos, por exemplo, por alguns meses. Mas não voltaria em definitivo. A menos que acontecesse uma mudança radical no sistema de política científica nacional.

(Folha de SP, 2/2)

Mercado aquecido eleva oferta de curso de engenharia à distância

Número de matriculados, de 8.596 alunos, quase quintuplicou entre os anos de 2007 e 2009

A falta de engenheiros para tocar obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e demais investimentos que vão garantir o crescimento da economia nos próximos anos elevou a oferta de cursos à distância.

De 2007 a 2009, mais do que quadruplicou a quantidade de alunos de engenharia nessa modalidade -de 1.724 para 8.596.

Eles recebem material impresso de apoio, têm aulas por plataformas da internet, participam de fóruns virtuais e podem tirar dúvidas on-line. Periodicamente, têm que comparecer a polos de ensino presencial para atividades práticas e provas.

A formação de engenheiros à distância, no entanto, não é consenso entre profissionais da área, que questionam essa forma de ensino para uma atividade que é essencialmente prática.

Na única universidade autorizada pelo MEC (Ministério da Educação) a ensinar engenharia civil à distância, as aulas práticas acontecem um final de semana por mês.

A favor desses cursos pesam o menor custo, a facilidade e a rapidez. Enquanto numa faculdade privada tradicional de São Paulo o aluno tem que desembolsar R$ 1.400 por mês, a mensalidade do curso de engenharia civil à distância sai por cerca de R$ 600, com desconto para quem paga em dia ou já tem outra graduação.

Para o presidente do Crea (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) do Paraná, Álvaro Cabrini, o grande problema que o país vai enfrentar diante da escassez de profissionais de engenharia é justamente a qualidade do ensino.

Crítico da formação em engenharia à distância, diz que "as pessoas estão preocupadas com quantidade e não qualidade". "Talvez seja melhor ficar distante das obras desses engenheiros", afirma.

O apagão era previsto em levantamento feito pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) em 2006.

Na terça-feira (1/2), o Ministério do Desenvolvimento anunciou um levantamento da oferta de profissionais, a ser iniciado em julho.

A busca pelos cursos regulares de engenharia cresceu 67% entre 2004 e 2009, segundo o Ministério da Educação -o número de concluintes passou de 33 mil para 55 mil. Esse aumento do interesse ocorreu após quase duas décadas de estagnação.

Existe, porém, uma dispersão desses profissionais. Dos 55 mil engenheiros formados em 2009, as entidades do setor estimam que só 32 mil passaram a atuar na área.

Para o assessor especial da CNI/Senai e vice-presidente da Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância), Marcos Formiga, há muito "preconceito" no Brasil em relação a esses cursos. "É fácil entrar, mas é difícil sair porque há uma exigência forte na avaliação."

Segundo ele, a ferramenta foi utilizada com sucesso em países como Coreia e Reino Unido. Mas admite que é preciso "maturidade" do aluno para se dedicar às aulas.

Profissional será rejeitado, diz sindicato

Apesar da falta de profissionais disponíveis no mercado, "as construtoras não vão querer funcionários de cursos à distância", afirma o vice-presidente de relação capital-trabalho do Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil) de São Paulo, Haruo Ishikawa.

Segundo ele, os cursos tradicionais já "são preocupantes" e "deficientes" na formação prática.

"O número de estagiários nas grandes incorporadoras nunca foi tão grande. A gente vê que o aprendizado prático é baixo." Por isso, diz, "curso à distância se torna péssimo para o setor".

Diego Argentino, da coordenação do Ceit (Centro de Engenharia e Inovação Tecnológica), parceiro da Universidade de Uberaba na oferta de curso de engenharia à distância, diz que os alunos nessa modalidade aprendem mais.

"No ensino presencial, o aluno senta e anota. Na educação à distância, ele tem que ir atrás, pesquisar, e acaba fixando melhor." Ele cita que atividades práticas são oferecidas em um final de semana por mês.

De acordo com Argentino, o perfil do aluno de curso à distância também é diferente, com predominância de profissionais que já estão no mercado.

(Sheila D'Amorim e Angela Pinho)

(Folha de SP, 2/2)

Salário igual "expulsa" cientistas brasileiros

Falta de competitividade faz com que pesquisadores não voltem ao país

A repatriação de cientistas brasileiros que atuam no exterior, proposta pelo ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, no início da sua gestão, pode não ser uma matemática simples.

De acordo com quem está fazendo ciência fora do Brasil, mesmo que exista vontade de voltar, a burocracia para se fazer pesquisa e a falta de competitividade nas universidades nacionais, diferentemente do que acontece nos EUA e na Europa, ainda são fatores de repulsa.

"No Brasil, os salários acadêmicos são iguais. Nos EUA, eu não ganho o mesmo salário que meus colegas. Há competitividade", diz o físico José Nelson Onuchic, professor da UCSD (Universidade de San Diego).

Ele está há 21 anos nos EUA, país que, estima-se, tenha 3.000 professores brasileiros.

A opinião de Onuchic é compartilhada por outros pesquisadores, como Alysson Muotri, que também é UCSD, mas é biólogo.

Em entrevista à Folha, disse que "para algumas pessoas, o real patriotismo é abandonar as melhores condições de trabalho no exterior e voltar ao Brasil. Alguns dizem "vem aqui sofrer com a gente, vamos juntos tentar melhorar este país'".

Quem faz pesquisa por aqui concorda com as dificuldades. "A gente perde muito tempo por lidar com tanta atividade burocrática", diz o biólogo Stevens Rehen, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

"Mas quem sai tem que saber que existem oportunidades para se fazer pesquisa aqui. Estou no Brasil não só porque estudei em universidade pública, mas por valores", completa o biólogo.

Onuchic não pensa em voltar de vez ao Brasil, mas, para ele, uma alternativa possível seria passar alguns meses por aqui.

Essa solução é uma das ideias de Mercadante para a repatriação. Em entrevista exclusiva à Folha, ele disse que pretende criar, via agências de fomento, um formato de "bolsas-sanduíche" (bolsa de pesquisa de curto período no exterior) ao contrário.

Seriam bolsas de pesquisa oferecidas aos brasileiros no exterior para que eles passem um tempo fazendo pesquisa por aqui.

"O Brasil é um país agradável, provavelmente os cientistas acabariam retornando", acredita o ministro.

A ideia é criar, com as bolsas de curta duração, uma espécie de rede da "inteligência brasileira" no exterior.

Essa política está sendo tocada na Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). "As redes ajudam. Mas temos trazido também cientistas com o Programa Jovem Pesquisador. Há repatriados e também estrangeiros", diz Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da fundação.

De acordo com ele, a Fapesp já apoiou mil pesquisadores com esse perfil nos últimos dez anos. "A maior parte deles ficou aqui", afirma Cruz. A Fapesp, no entanto, não tem os números exatos.

"A gente sempre tem vontade de voltar", diz pesquisadora

Mesmo com as condições atrativas de países como EUA e da Europa Ocidental, há quem prefira ser cientista na sua terra natal. Entre esses pesquisadores está a cientista da computação Juliana Salles, da Microsoft Research.

A mineira formada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) hoje faz pesquisas em solo brasileiro, depois de quatro anos nos EUA.

A possibilidade veio com um convênio firmado entre a Microsoft e a Fapesp em 2006, para desenvolvimento de sistemas computacionais com foco em clima.

"É claro que a gente sempre tem vontade de voltar para o país de origem, né?", disse Salles à Folha.

Mas o motivo maior do retorno teve razões pessoais: seu marido teve dificuldades com o visto americano.

"O país viveu uma diáspora por causa de recessão, instabilidade, falta de recursos", analisa Mercadante, ao falar dos nossos cientistas em terras estrangeiras.

O ministro afirmou que pretende criar um comitê para mapear esses profissionais e estudar políticas de incentivo para trazê-los de volta. Foi o que fizeram a Índia, com o "Ministério dos Indianos do Exterior", e a China, em programa para levar seus cientistas de volta ao país (sob regime autoritário, claro).

O ministro também disse que pretende "aproveitar" a crise econômica que afeta alguns países desenvolvidos para atrair ao Brasil técnicos e cientistas estrangeiros.

(Sabine Righetti)

(Folha de SP, 2/2)